
De Black Sabbath a Helloween, seleção reúne referências a filmes, personagens sobrenaturais e histórias por trás das gravações
Um filme de Boris Karloff ajudou a dar nome ao Black Sabbath. Uma adaptação de Stephen King levou os Ramones a escrever “Pet Sematary”. Até um carro em formato de caixão, apresentado na televisão nos anos 1960, serviu de referência para um sucesso de Rob Zombie. A relação do rock e do heavy metal com o terror passa por fontes bastante concretas, muitas vezes incorporadas às letras e aos videoclipes.
Neste 31 de outubro, reunimos dez músicas que ajudam a contar essa história. A seleção inclui faixas dedicadas ao Halloween e composições sobre aparições, pesadelos e criaturas, com gravações lançadas entre 1970 e 1998.
1. Helloween — “Halloween” (1987)
Composta pelo guitarrista Kai Hansen, “Halloween” ocupa 13 minutos e 18 segundos de Keeper of the Seven Keys Part I, disco que marcou a estreia de Michael Kiske como vocalista do Helloween. A gravação reúne Hansen e Michael Weikath nas guitarras, Markus Grosskopf no baixo e Ingo Schwichtenberg na bateria. O álbum foi registrado no Horus Sound Studios, em Hannover, entre novembro de 1986 e janeiro de 1987.
A letra começa com máscaras, fantasias e a tradição de pedir doces, mas introduz uma presença sobrenatural entre as pessoas nas ruas. A duração permite desenvolver a história em diferentes seções, com mudanças de andamento e longas passagens de guitarra. Para o videoclipe, a composição foi reduzida a pouco mais de cinco minutos, menos da metade da versão do disco.
2. King Diamond — “Halloween” (1986)
“Halloween” integra Fatal Portrait, álbum de estreia da banda King Diamond, lançado em 1986 após a primeira separação do Mercyful Fate. A composição é assinada pelo cantor e pelo guitarrista Michael Denner, que também havia participado do grupo anterior. A formação do disco se completa com Andy LaRocque na guitarra, Timi Hansen no baixo e Mikkey Dee na bateria.
Embora Fatal Portrait já apresente uma história distribuída por várias faixas, “Halloween” é uma composição independente desse enredo. Em pouco mais de quatro minutos, King associa o 31 de outubro à sua própria figura de palco e descreve a noite como um período em que forças sobrenaturais circulam livremente. A música antecede Abigail (1987), trabalho no qual o cantor desenvolveria uma narrativa de terror ao longo de todo o álbum.
3. Misfits — “Halloween” (1981)
Lançada em single pela Plan 9 em 1981, “Halloween” traz Glenn Danzig no vocal e na composição. O compacto apresenta “Halloween II” no outro lado, mas as duas gravações adotam caminhos diferentes: a primeira segue a estrutura curta do punk rock; a segunda utiliza uma abordagem mais próxima de uma invocação, com palavras em latim.
Na faixa principal, referências a doces e folhas de outono aparecem ao lado de imagens de violência e morte. Essa mistura de elementos da celebração com o repertório dos filmes de horror já fazia parte do trabalho dos Misfits, que também gravaram músicas como “Vampira” e “Night of the Living Dead”. As versões do single de “Halloween” e “Halloween II” foram posteriormente reunidas em Collection II, de 1995.
4. Black Sabbath — “Black Sabbath” (1970)
A música que abre o álbum de estreia do Black Sabbath tem ligação com dois episódios da história do grupo. O título veio de Black Sabbath, filme de 1963 dirigido por Mario Bava, com participação de Boris Karloff. Já a letra foi inspirada em um relato de Geezer Butler, que afirmou ter visto uma figura escura ao pé da cama. A história é reproduzida na biografia publicada no site oficial da banda.
Lançada em 1970, a gravação começa com chuva, trovões e sinos antes da entrada da guitarra de Tony Iommi. O riff explora o trítono, intervalo musical que produz a tensão característica da faixa. Ozzy Osbourne canta pela perspectiva de alguém que presencia a aparição e tenta escapar. O nome do filme acabou identificando a composição, o grupo e seu álbum de estreia.
5. Ozzy Osbourne — “Bark at the Moon” (1983)
“Bark at the Moon” abre o terceiro álbum solo de Ozzy Osbourne e apresenta Jake E. Lee como o novo guitarrista de estúdio do cantor. Lançado em 1983, o disco sucede Diary of a Madman (1981) e é o primeiro álbum de estúdio da carreira solo de Ozzy após a morte de Randy Rhoads, ocorrida em março de 1982.
A letra descreve o retorno de uma criatura que havia sido perseguida e enterrada. O videoclipe desenvolve outra história, com experiências de laboratório e a transformação de Ozzy em lobisomem. Parte das filmagens ocorreu no Holloway Sanatorium, em Surrey, na Inglaterra, conforme o registro do fotógrafo Simon Fowler, que trabalhou no local. O personagem também aparece na capa do álbum.
6. Alice Cooper — “Welcome to My Nightmare” (1975)
Composta por Alice Cooper e Dick Wagner, “Welcome to My Nightmare” dá nome ao álbum que iniciou a carreira solo do cantor em 1975. Produzido por Bob Ezrin, o trabalho acompanha os pesadelos de Steven, personagem que reapareceria em outras gravações de Cooper. Wagner e Steve Hunter dividem as guitarras do disco.
O projeto também foi desenvolvido para a televisão e para os palcos. No especial Alice Cooper: The Nightmare, de 1975, Cooper interpreta Steven, enquanto Vincent Price aparece como o Espírito do Pesadelo. O ator também participa do álbum, com uma narração em “The Black Widow”. A faixa-título apresenta o ambiente da história e funciona como a entrada para a sequência de sonhos e ameaças descrita nas demais músicas.
7. Iron Maiden — “The Number of the Beast” (1982)
Escrita por Steve Harris, a faixa-título do álbum de 1982 tem entre suas referências o cinema de horror da série A Profecia e o poema “Tam o’ Shanter”, de Robert Burns. Harris relacionou a composição a um pesadelo e rejeitou a interpretação de que a música defendia o culto ao diabo. A letra acompanha um narrador que presencia um ritual e questiona se aquilo é real.
A introdução falada foi gravada pelo ator Barry Clayton, com passagens adaptadas do Apocalipse. O grupo havia considerado Vincent Price para o trabalho, mas desistiu por causa do cachê. Já o grito de Bruce Dickinson está ligado às exigências do produtor Martin Birch: no documentário Classic Albums, o vocalista recorda o desgaste provocado pela repetição das primeiras linhas durante a sessão.
8. Ramones — “Pet Sematary” (1989)
“Pet Sematary” foi composta por Dee Dee Ramone e Daniel Rey para Cemitério Maldito, adaptação do romance de Stephen King dirigida por Mary Lambert em 1989. Em depoimento à TIDAL, Lambert explicou que era amiga de Dee Dee e entrou em contato com o músico para propor a gravação. Rey confirmou que o pedido deu início ao trabalho dos dois na composição.
A faixa toca nos créditos finais do filme e também foi incluída em Brain Drain, lançado pelos Ramones naquele ano. A letra aborda o medo de ser enterrado e voltar à vida, um dos elementos centrais da história de King. Segundo a gravadora Rhino, o single alcançou o quarto lugar na parada de músicas alternativas da Billboard, resultado expressivo para uma banda cuja influência foi maior que seu desempenho comercial.
9. Type O Negative — “Black No. 1 (Little Miss Scare-All)” (1993)
O título de “Black No. 1” faz referência a uma tonalidade de tinta para cabelo. Lançada em Bloody Kisses (1993), a música descreve uma mulher ligada à subcultura gótica e inclui menções a Nosferatu, Lily Munster e ao Halloween. A personagem quer sair em uma noite de mau tempo, mas se preocupa com as raízes do cabelo, detalhe que explicita o sarcasmo de Peter Steele.
A versão do álbum dura cerca de 11 minutos. Steele contou à Revolver que elaborou a composição mentalmente enquanto dirigia um caminhão de lixo, durante seu período como funcionário público em Nova York. O episódio contrasta com a imagem associada ao grupo: uma das músicas mais conhecidas do gothic metal surgiu durante um expediente de trabalho.
10. Rob Zombie — “Dragula” (1998)
“Dragula” foi lançada em Hellbilly Deluxe, álbum que iniciou a carreira solo de Rob Zombie em 1998, após seu trabalho com o White Zombie. Escrita com Scott Humphrey, a faixa faz referência ao DRAG-U-LA, carro de corrida construído a partir de um caixão na série de televisão Os Monstros. Na trama, o veículo é utilizado pelo Vovô Munster.
Há uma diferença entre a referência do título e a imagem do videoclipe: o automóvel conduzido por Zombie é o Munster Koach, outro carro da mesma série. Dirigido pelo próprio músico, o vídeo incorpora personagens e trechos de produções antigas de horror. Décadas depois, Zombie retomaria a ligação com a família Munster ao dirigir a adaptação cinematográfica lançada em 2022.
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