RESENHA DE SHOW: Iron Maiden mostra por que é um dos bastiões do heavy metal em show histórico em São Paulo — 27/10/2026

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Crédito da Foto: Stephan Solon @stephansolon / Move Concerts

Com abertura do Alter Bridge, apresentação de 27 de outubro no Nubank Parque reuniu duas bandas que marcaram minha formação como ouvinte de Rock e Heavy Metal.

Texto por Thiago Rahal Mauro

Conheci o Iron Maiden nas coleções de discos do meu pai e do meu tio. Foi a primeira banda com a qual me identifiquei quando criança, e o ao vivo Live After Death foi minha primeira paixão. Eu ainda não entendia direito o que Bruce Dickinson cantava, muito menos conhecia as referências históricas e literárias das letras, mas queria ouvir de novo. Também passava um bom tempo olhando as capas com Eddie, lendo os nomes dos integrantes e tentando descobrir quem tocava o quê. Em 2026, assisti ao meu 9º show da banda. Em algumas ocasiões, estive ali como repórter, como desta vez; em outras, como público.

Com o Iron Maiden, comecei a prestar atenção em coisas que antes passavam despercebidas. Com Steve Harris, descobri que podia acompanhar o baixo durante uma música inteira. Nas guitarras, fui aprendendo a reconhecer diferenças entre os solos de Dave Murray e Adrian Smith. E me acostumei às composições longas porque queria ouvir tudo o que acontecia nelas. Não entendia de técnica, mas já tinha meus trechos favoritos e ficava esperando que chegassem.

Por isso, não consigo assistir a um show do Maiden como repórter sem levar um pouco dessas lembranças comigo. Tenho minhas preferências, reclamo de algumas escolhas e percebo quando alguma coisa não funciona. Mas a banda faz parte da minha vida há tempo demais para que eu escreva sobre ela fingindo indiferença.

Na terça-feira, 27 de outubro, no Nubank Parque, em São Paulo, a Run For Your Lives me colocou novamente diante daquele repertório que forjou a minha história. A turnê dos cinquenta anos se concentrou nas músicas lançadas entre a estreia, em 1980, e Fear of the Dark, de 1992. Eram discos que eu conhecia bem, alguns desde a infância, e que continuo ouvindo por vontade própria, sem precisar de uma data comemorativa como desculpa.

Antes, porém, havia o Alter Bridge. Outra banda importante para mim, embora nossa relação tenha começado com uma desconfiança que hoje reconheço como preconceito.

ALTER BRIDGE

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Crédito da Foto: Stephan Solon @stephansolon / Move Concerts

O Alter Bridge assumiu o palco às 19h10. Quando o grupo surgiu, em 2004, minha reação foi bem menos receptiva: saber que Mark Tremonti, Brian Marshall e Scott Phillips vinham do Creed bastou para que eu criasse resistência antes de ouvir os discos com atenção.

Myles Kennedy completava a formação, mas eu ainda julgava a banda pela procedência de três de seus integrantes. Tinha minhas ideias sobre o que merecia ser chamado de música pesada e, por causa delas, deixava passar coisas de que poderia gostar. Precisei ouvir mais para admitir o erro. O Alter Bridge acabou se tornando uma das bandas que me fizeram olhar com mais interesse para o metal moderno e alternativo. Gostei dos riffs de Tremonti, da voz de Kennedy e, sobretudo, de como as composições sustentavam essa combinação.

Com a incumbência de agradar o público do Iron Maiden, “Silent Divide”, do álbum autointitulado, seu último lançamento, abriu o show. Ela é pesada, mais cadenciada e perfeita pra entender a sonoridade da banda. Caiu nos gostos dos fãs que estavam presentes. Na sequência, “Addicted to Pain” e “Cry of Achilles”, ambas de Fortress (2013), mostraram dois caminhos que gosto de acompanhar no quarteto: a primeira mais direta; a segunda com uma introdução e um desenvolvimento maior. Para quem acha que as guitarras do Alter Bridge são só do Tremonti, Cry of Achilles é um belo exemplo do quanto Myles Kennedy toca muito. Kennedy sempre me chamou a atenção pela voz, mas seu trabalho na guitarra merece ser ouvido com o mesmo cuidado. A divisão com Tremonti dá espaço às bases, às melodias e aos solos sem deixar os arranjos carregados.

A faixa “Fortress” foi outro exemplo disso. É nesse tipo de composição que mais gosto do Alter Bridge: quando o grupo permite que uma ideia dure o quanto precisa, sem excessos. “Ghost of Days Gone By”, de AB III (2010), e “Metalingus”, da estreia One Day Remains (2004), trouxeram de volta os riffs mais imediatos. Metalingus, inclusive, é uma das faixas mais pesadas da banda e se você é fã de Metal deveria prestar mais atenção nela.

Minha preferência, porém, continua sendo “Blackbird”. Gosto da maneira como a música cresce, da interpretação de Kennedy e dos solos. A letra sobre perda também passou a me atingir de outra forma. Algumas pessoas de quem sentimos falta acabam associadas às músicas que ouvimos, mesmo quando essa associação nunca esteve prevista. Essa também parece ser a música que os fãs do Iron Maiden mais conheciam da banda.

“Rise Today” encerrou a apresentação com gostinho de quero mais. Por mais que a banda já tenha seu público e consiga encher uma casa de mais de 5 mil pessoas em São Paulo, se apresentar para um público como do Iron Maiden é uma boa pedida para atrair novos fãs que assim como eu tem curiosidade com outras sonoridades.

Fiquei pensando em quanto tempo eu levei para dar uma chance à banda. Hoje ela está entre as bandas que mais gosto de ouvir e a ligação com o Creed deixou de ser uma questão – inclusive hoje consigo ouvir Creed com outros ouvidos graças ao Alter Bridge.

Setlist — Alter Bridge

Silent Divide
Addicted to Pain
Cry of Achilles
Fortress
Ghost of Days Gone By
Metalingus
Blackbird
Rise Today

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Crédito da Foto: Stephan Solon @stephansolon / Move Concerts

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Crédito da Foto: Stephan Solon @stephansolon / Move Concerts

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Crédito da Foto: Stephan Solon @stephansolon / Move Concerts

IRON MAIDEN

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Crédito da Foto: Stephan Solon @stephansolon / Move Concerts

Formado por Bruce Dickinson (vocal), Steve Harris (baixo), Dave Murray (guitarra), Adrian Smith (guitarra), Janick Gers (guitarra) e Simon Dawson (bateria), o show do Iron Maiden estava marcado para às 20h50. Dez minutos antes do horário marcado, o público já estava pronto para a entrada da banda no palco. Quem gosta de beber já havia comprado sua cerveja, e quem queria ver os músicos de perto já tinha escolhido seu lugar. “Doctor Doctor”, do UFO, anunciou que a apresentação estava prestes a começar. Depois de tantos anos acompanhando a banda, é difícil ouvir essa música sem sentir um arrepio pelos primeiros acordes e a galera pula e canta já sabendo o que está por vir.

Logo na sequência, “The Ides of March” soou muito alto pelo PA, levando o público ao delírio antes da introdução de “Murders in the Rue Morgue”. A banda entrou no palco ao som dos rufos da bateria, com uma ferocidade absurda. A interação com o telão foi um ponto alto nessa música.

Em seguida, “Wrathchild” e “Killers” mantiveram o show no álbum de 1981 e na fase de Paul Di’Anno. Em “Wrathchild”, gosto de acompanhar o baixo de Harris desde a introdução e de como a banda consegue colocar tanta coisa numa música tão curta. Já “Killers” tem aquela abertura que vai aumentando a tensão até a entrada do riff e do vocal. Sempre gostei da agressividade dessas gravações, com mudanças de andamento que não tiram a força dos riffs. Foi durante “Killers” que Eddie apareceu pela primeira vez no palco para interagir com os músicos, levando os fãs ao delírio. Eu sei que é uma fantasia, sei que ele vai aparecer, mas continuo esperando para ver a bagunça que vai arrumar. É uma das graças de assistir ao Maiden.

Logo de cara, a primeira mudança em relação às últimas apresentações da banda estava bem na minha frente: o telão. O Iron Maiden sempre foi uma banda do analógico, com versões infláveis de Eddie atrás da bateria e adereços físicos espalhados pelo palco, mas, nesta turnê, aderiu aos telões. Sinais dos tempos. É preciso dizer: gostei do resultado. Eu estava reticente dessa novidade, mas dei o braço a torcer.

Ouvir Bruce Dickinson no repertório dos primeiros discos também permite perceber o quanto a voz de Di’Anno marcou as versões originais. São interpretações diferentes, e continuo tendo carinho por aquela aspereza das primeiras gravações.

Empolgado, Bruce fez sua primeira fala com o público: “Pela segunda noite consecutiva sold out, puta que pariu! Brasil, a gente vai se divertir muito hoje à noite, e vai ser uma noite longa. Vamos ficar aqui por um bom tempo. Porque esperamos cinquenta anos por este exato momento, agora mesmo. E você, e você, e você… Chegou a hora. É hora de Phantom of The Opera!”

“Phantom of the Opera” me trouxe outras lembranças. Quando conheci a música, fiquei impressionado com a quantidade de coisas que aconteciam nela. Aos poucos, passei a reconhecer cada trecho. Para mim, é a música ideal para apresentar a alguém que nunca ouviu Iron Maiden: “Isso aqui define bem a banda. Se você gostar dessa, tem grandes chances de gostar do resto”.

Dave Murray, Adrian Smith e Janick Gers têm maneiras distintas de tocar, algo que ficou ainda mais interessante desde que o Maiden passou a contar com três guitarristas. Gosto da fluidez de Murray, das frases e da técnica apurada de Smith e da abordagem mais solta de Gers. Depois de tanto ouvir os discos, reconhecer essas diferenças virou parte do prazer de acompanhar a banda. Mas há quem discorde de mim e ainda reclame da permanência de Janick após a volta de Adrian. Só porque o coitado fica pulando e jogando a guitarra para o alto. Faz parte do show, meu amigo.

Bastou começar a narração de “The Number of the Beast” — “Woe to you, oh, earth and sea” — para eu já me antecipar mentalmente tudo o que viria depois. Conheço tão bem essa introdução, o grito de Dickinson e o riff que preciso me concentrar para descobrir algum detalhe que ainda tenha me escapado, mesmo depois de tantas audições. Quando ouço os álbuns ao vivo em CD ou no Spotify, costumo pular essa música de tanto que já a ouvi na vida. No show, porém, ela continua excelente. Incoerente? Sim, mas é a vida.

Bruce Dickinson falou com os fãs novamente: “Meus amigos do Brasil, nós estamos nessa estrada há muito tempo. Bom, nós fizemos um show aqui em São Paulo há alguns dias. Alguns de vocês talvez nunca tenham nos visto tocar ao vivo. Mas tudo isso tem a ver com sonhos. E todo mundo deveria ter um sonho. No caso desta próxima música, quando vocês forem dormir à noite e colocarem a cabeça no travesseiro, eu espero que todos os seus sonhos sejam sonhos infinitos.”

Na infância, eu prestava mais atenção aos instrumentos. Com o tempo e com uma compreensão melhor do inglês, as letras mudaram minha relação com várias músicas do Maiden. “Infinite Dreams” é uma delas. As dúvidas sobre os sonhos, a morte e o que poderia existir depois ganharam outro peso conforme fui envelhecendo. Continuo gostando dos mesmos trechos instrumentais, mas hoje escuto a composição com outras preocupações. Aqui uma pequena crítica a Simon Dawson, que tocou a música no modo feijão com arroz, não errou, mas ela tem um charme que só Nicko sabia fazer. Já Bruce Dickinson interpretou lindamente, uma de suas melhores performances.

Em “Powerslave”, gosto de acompanhar Bruce interpretando aquele faraó que se considera um deus, mas não consegue aceitar que vai morrer como qualquer um. A máscara e as imagens egípcias no telão ajudam a contar a história, recursos também registrados nas resenhas da primeira noite em São Paulo. Mas, depois do refrão, minha atenção vai para as guitarras. A mudança para a parte mais lenta está entre os trechos que mais gosto de ouvir no Maiden: o baixo fica mais evidente, a guitarra começa a desenhar a melodia e eu já espero o solo de Dave Murray. Gosto do jeito como ele prolonga algumas notas e emenda as frases, antes de a música ganhar velocidade novamente. Conheço essa sequência desde as audições do Live After Death e ainda tento acompanhá-la nota por nota. Não sei tocar guitarra, mas faço minha parte cantando os solos. Para o bem de quem está por perto, o volume da banda resolve esse problema.

“2 Minutes to Midnight” veio em seguida com aquele riff que reconheço nas primeiras notas. Quem ouve bastante heavy metal dos anos 1980 provavelmente já percebeu que ele tem alguns parentes espalhados por outros discos. Mas deixei as comparações para depois: ali, eu queria acompanhar a guitarra de Adrian Smith e cantar o refrão. Gosto de como a música alterna os versos, com Bruce quase cuspindo as palavras, e aquele refrão que dá vontade de cantar a plenos pulmões, mesmo com uma letra tão amarga sobre guerra e os interesses de quem lucra com ela. Dawson manteve o andamento mais contido, e, nessa música, achei que a escolha funcionou. O riff ganhou peso, e consegui prestar mais atenção no baixo entre as frases do vocal. Depois da ressalva que fiz em “Infinite Dreams”, aqui preciso dar o crédito ao baterista.

Já “Rime of the Ancient Mariner” era uma das que eu mais queria ouvir. Gosto muito desse lado do Maiden que ocupa um lado inteiro do vinil, ou quase isso, para contar uma história. A adaptação do poema de Samuel Taylor Coleridge tem mais de treze minutos, e nunca achei que precisasse cortar nenhum deles.
Principalmente aquela parte do meio. Sei que há quem ache longa demais, mas eu sentiria falta se a banda resolvesse encurtá-la. Fico ouvindo o baixo, a voz da narração e os estalos que parecem vir da madeira de um navio velho. É um som esquisito para se ouvir num estádio, ainda mais depois de uma sequência de músicas que todo mundo canta. E é justamente por isso que gosto tanto. Por alguns minutos, preciso parar de esperar o próximo refrão e prestar atenção no que está acontecendo.

O telão funcionou muito bem ali. O navio na imagem acompanhava uma cena que eu já imaginava havia anos, desde as primeiras vezes em que ouvi a gravação. Fiquei acompanhando os detalhes, mas também esperando a passagem que, para mim, justifica toda aquela demora.

Quando o baixo começa a repetir a frase que anuncia a retomada, já sei que Bruce está para voltar. Mesmo assim, fico esperando. A voz entra, ele sustenta o agudo, a banda acelera e vêm os solos. Essa é uma das minhas partes favoritas de toda a discografia do Maiden. É difícil explicar sem parecer exagerado, mas eu teria ido ao show só para ouvir essa sequência. E ainda havia bastante música pela frente.

Depois de “Rime of the Ancient Mariner”, “Run to the Hills” pareceu passar ainda mais rápido. É outra que costumo deixar de lado quando ouço os discos, mas que faço questão de cantar no show. Gosto especialmente de acompanhar Harris nessa música. O baixo ajuda a dar aquela sensação de correria mesmo nos trechos das guitarras.

“Seventh Son of a Seventh Son” me fez lembrar das vezes em que ouvi o disco de 1988 tentando acompanhar seus arranjos. Tenho um carinho enorme por esse álbum e gosto especialmente de como a faixa-título vai mudando depois da insistência do refrão. Na parte narrada, sempre imagino um filme: crio os cenários, os personagens e as cenas enquanto acompanho a voz e os instrumentos ao fundo. As músicas longas do Maiden têm esse poder sobre mim. Em “Rime”, imagino o navio parado e o marinheiro cercado pelos mortos; aqui, vejo o nascimento do sétimo filho e a disputa entre o bem e o mal pelo destino dele. Fico esperando a narração terminar para ouvir a bateria conduzir a volta das guitarras e acompanhar aquela sequência de melodias e solos. É uma das partes que mais gosto no disco e que faço questão de ouvir com atenção no show. Sei que há quem aproveite esse trecho para buscar cerveja. Eu prefiro resolver isso antes.

“The Trooper” me lembrou porque aquelas guitarras me chamaram tanto a atenção quando criança. Antes de saber o que era uma harmonia ou entender o galope do baixo, eu já gostava daquele som e queria ouvir de novo. Hoje consigo identificar melhor o que cada músico faz, mas continuo esperando o encontro das guitarras com a mesma vontade. No palco, Bruce empunhou as bandeiras do Brasil e do Reino Unido, enquanto Eddie apareceu vestido de soldado. É uma encenação que já conheço, mas da qual continuo gostando. Tem coisas que a gente sabe que vão acontecer e faz questão de ver outra vez.

Em “Hallowed Be Thy Name”, minha atenção voltou para Bruce. A cela e a forca ajudam a contar a história, mas gosto principalmente de como ele interpreta o condenado, passando da incredulidade ao desespero conforme a execução se aproxima. Quando conheci a música, ficava esperando a introdução terminar e a banda acelerar. Hoje, presto mais atenção na letra e na maneira como Bruce alonga as palavras, como se aquele homem tentasse ganhar alguns segundos antes de morrer. Continuo esperando as guitarras, claro, especialmente a sequência instrumental da segunda metade. No final, a interação de Bruce com o telão deu continuidade à encenação: a ação no palco se ligou às imagens, acompanhando os últimos momentos do personagem. Foi um dos usos do recurso de que mais gostei, porque havia uma história para concluir ali. Mesmo conhecendo o desfecho, fiquei acompanhando até o fim.

“Iron Maiden” encerrou a parte principal do show com um Eddie gigantesco no telão. Gosto do riff e da maneira direta como a música chega ao refrão. Enquanto cantava, fiquei olhando para Eddie e lembrando de quando examinava as capas dos discos do meu pai e do meu tio, procurando detalhes nos desenhos. Eu ainda não entendia as letras, mas queria saber quem era aquela criatura e por que ela aparecia diferente em cada álbum. Continuo preferindo alguns dos cenários e bonecos antigos, mas gostei de ver essa versão atrás dos músicos.

No refrão, “Iron Maiden’s gonna get you, no matter how far”, a letra avisa que o Maiden vai te pegar, não importa a distância. Lembrei das primeiras vezes em que ouvi Live After Death, ainda criança. Na época, eu tentava acompanhar as palavras sem saber direito o que estava cantando. No meu nono show da banda, já conhecia a letra, mas continuava dividindo a atenção entre os músicos e os detalhes de Eddie.

No bis, a voz de Winston Churchill saiu pelo PA, acompanhada pelos sons de aviões e pelas imagens de combate aéreo no telão, antes da entrada de “Aces High”. A combinação me fez acompanhar a introdução com mais atenção, embora eu conheça essa sequência de tantas audições do Live After Death. Naquele disco, os sons já me faziam imaginar os aviões; ali, as imagens mostravam a perseguição enquanto eu esperava as primeiras notas da guitarra. Ainda achei curioso ouvir tudo isso perto do fim do show, de tão acostumado que estou a associar essa abertura ao começo da apresentação.

“Fear of the Dark” é outra que raramente escolho para ouvir em casa, mas que acompanho desde as primeiras notas no show. Gosto da guitarra na introdução e da maneira como Bruce canta os versos iniciais, antes de a banda acelerar. A letra descreve aquele medo de estar sendo seguido no escuro, quando qualquer ruído faz a gente olhar para trás. No estádio, porém, acabo prestando mais atenção no público cantando a melodia da guitarra e esperando a entrada do vocal. Estou tão acostumado com essa participação nas gravações ao vivo que a versão de estúdio me parece estranha sem ela. Às vezes penso que a banda poderia dar um descanso à música para abrir espaço a outra. Na hora do show, canto do começo ao fim. Olha a incoerência aí novamente. A arte provoca isso.

“Wasted Years” encerrou a noite com aquela introdução de Adrian Smith que reconheço nas primeiras notas. Sempre gostei da guitarra nessa música, das pequenas frases entre os vocais e do solo, que dá vontade de acompanhar do começo ao fim. O refrão responde a isso de um jeito que, aos vinte anos, eu provavelmente cantava sem pensar muito. Hoje, presto atenção. Depois de um show em que lembrei tantas vezes da criança que descobriu o Maiden, terminar com essa música me fez pensar no quanto ainda gosto de estar ali, ouvindo aqueles músicos. Já teria tempo para sentir saudade daquela noite depois.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Saí do show pensando no quanto aquelas duas bandas tinham a ver com a minha maneira de ouvir música. Com o Iron Maiden, ainda criança, eu queria conhecer tudo: os discos, os músicos, as histórias das letras e os desenhos das capas. Já com o Alter Bridge, precisei rever uma opinião que havia formado antes de ouvir a banda direito. Ainda bem que dei o braço a torcer. Hoje, volto aos discos dos dois grupos com a mesma vontade de ouvir minhas músicas favoritas.

É preciso destacar Bruce Dickinson: cantou absurdamente bem. Em “Infinite Dreams”, “Rime of the Ancient Mariner” e “Hallowed Be Thy Name”, principalmente, fiquei acompanhando a maneira como ele interpretava as letras, sustentava as notas e mudava a voz de acordo com o personagem. Conheço essas gravações há décadas e fui ao meu nono show da banda, mas ainda houve momentos em que me surpreendi com o que estava ouvindo. Bruce teve muito a ver com isso.

Também gosto de observar quem está ao redor num show do Maiden no Brasil. Pais e filhos com camisetas de turnês diferentes, amigos que combinam de se encontrar a cada passagem da banda, gente contando quantas vezes já foi. Imagino quantas histórias parecidas com a minha existem ali, começando num disco emprestado, numa coleção de família ou numa música ouvida por acaso. Essa relação com o público brasileiro também aparece nas cobranças: discutimos o repertório, o andamento, o som e até o que cada guitarrista deveria tocar. Depois, começamos a perguntar quando a banda volta. Eu já estou nessa parte.

Setlist — Iron Maiden

The Ides of March
Murders in the Rue Morgue
Wrathchild
Killers
Phantom of the Opera
The Number of the Beast
Infinite Dreams
Powerslave
2 Minutes to Midnight
Rime of the Ancient Mariner
Run to the Hills
Seventh Son of a Seventh Son
The Trooper
Hallowed Be Thy Name
Iron Maiden
Bis
Aces High
Fear of the Dark
Wasted Years

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Crédito da Foto: Stephan Solon @stephansolon / Move Concerts

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Crédito da Foto: Stephan Solon @stephansolon / Move Concerts

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Crédito da Foto: Stephan Solon @stephansolon / Move Concerts

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Crédito da Foto: Stephan Solon @stephansolon / Move Concerts





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