Iron Maiden no Brasil: o que esperar da turnê que celebra os 50 anos da banda

13/10/2026 // Home  »  Destaque • Notícias   »   Iron Maiden no Brasil: o que esperar da turnê que celebra os 50 anos da banda

Por Thiago Rahal Mauro

Iron Maiden Lineup 2026

Com repertório dos primeiros nove discos e uma nova concepção de palco, a “Run For Your Lives” permite observar como a banda construiu sua identidade

O interesse na próxima passagem do Iron Maiden pelo Brasil vai além da possibilidade de ouvir novamente “The Trooper” ou cantar “Fear of the Dark” em um estádio. A “Run For Your Lives World Tour” tem um recorte que dá sentido à comemoração dos 50 anos da banda: concentrar o repertório entre o primeiro álbum, lançado em 1980, e “Fear of the Dark”, de 1992. Nesse intervalo estão as músicas que estabeleceram sua identidade e boa parte das referências visuais que continuam associadas ao grupo. A turnê chega a São Paulo em 25 e 27 de outubro, no Nubank Parque, antigo Allianz Parque, e a Curitiba no dia 28, na Arena da Baixada, com abertura do Alter Bridge.

Há uma escolha interessante nesse conceito. Uma comemoração de carreira poderia simplesmente distribuir sucessos de diferentes décadas pelo repertório. Ao se limitar aos nove primeiros discos, o Maiden permite uma leitura mais clara de sua transformação: das composições mais diretas do início às estruturas longas, às mudanças de andamento e às narrativas que passaram a ocupar seus álbuns. Para o fã, o valor está também em perceber essas diferenças dentro de uma mesma apresentação.

O show de Bogotá, realizado em 11 de outubro, ajuda a entender essa proposta. A sequência de “Murders in the Rue Morgue”, “Wrathchild”, “Killers” e “Phantom of the Opera” coloca os primeiros discos no centro da abertura. É uma decisão que dá peso a esse material, em vez de tratá-lo como uma breve lembrança antes das músicas mais populares. Mais adiante, “Rime of the Ancient Mariner”, “Seventh Son of a Seventh Son” e “Infinite Dreams” apresentam outra dimensão da banda, na qual o desenvolvimento das composições importa tanto quanto o refrão.

É nessa convivência que o repertório ganha força. “Run to the Hills”, “The Number of the Beast” e “The Trooper” oferecem o reconhecimento imediato que se espera de um show comemorativo. As faixas mais extensas exigem outra atenção e evitam que a apresentação tenha o ritmo de uma simples sequência de singles. O bis recente, com “Aces High”, “Fear of the Dark” e “Wasted Years”, indica que a banda reservou músicas de forte participação do público para o encerramento. A seleção de Bogotá é uma referência para o Brasil, embora possa sofrer alterações.

No palco, a decisão de recorrer a grandes telas digitais merece atenção. Os tradicionais painéis de fundo ajudaram a formar a memória dos shows do Iron Maiden, e substituí-los altera uma característica reconhecível de sua produção. A estrutura atual utiliza imagens, referências às capas e ambientações relacionadas às músicas. O ganho está na possibilidade de transformar o cenário ao longo da apresentação; o desafio é fazer com que essas imagens tenham função no espetáculo, sem reduzir o palco a uma tela que disputa atenção com os músicos.

Eddie ajuda a manter o vínculo com a linguagem que a banda desenvolveu ao vivo. Nos registros da estreia da turnê, o mascote aparece fisicamente em “Killers” e participa da encenação de “The Trooper” com Bruce Dickinson. Sua presença importa porque introduz ação no palco: há um personagem dividindo espaço com os músicos, e não apenas uma imagem ao fundo. A combinação entre essa teatralidade e os cenários digitais será um dos aspectos a observar nos estádios brasileiros.

A ausência de músicas de “No Prayer for the Dying”, porém, deixa uma lacuna nessa retrospectiva. Embora o disco de 1990 esteja dentro do período escolhido, nenhuma de suas faixas aparece no repertório. A proposta de trabalhar com os nove primeiros álbuns não obriga a banda a representar todos eles, mas a exclusão merece discussão: uma música como “Bring Your Daughter… to the Slaughter” ou “Holy Smoke” acrescentaria outro capítulo ao percurso apresentado. Sem esse material, a seleção privilegia algumas fases e deixa de lado justamente um disco que poderia ampliar o debate sobre as mudanças musicais do grupo.

A bateria também oferece um ponto de escuta diferente. Simon Dawson, parceiro de Steve Harris no British Lion, assumiu as apresentações do Maiden a partir de 2025. Para quem acompanhou a banda durante décadas com Nicko McBrain, haverá uma comparação inevitável. Mais interessante do que procurar uma reprodução exata das versões conhecidas será observar como Dawson sustenta músicas de épocas distintas e se integra à dinâmica do grupo.

O pedido para que os fãs reduzam as filmagens com celulares combina com a proposta da turnê. A intenção declarada é recuperar uma participação mais próxima daquela dos shows dos anos 1980, com a atenção voltada para a apresentação. Não é preciso idealizar aquela época para reconhecer o efeito de uma plateia que acompanha a música sem manter o aparelho erguido durante boa parte da noite.

O que torna essa passagem pelo Brasil interessante é a possibilidade de ouvir um repertório conhecido em uma organização que revela suas diferenças. A expectativa está no contraste entre a urgência das primeiras músicas e o tempo que as composições mais longas exigem, entre a memória dos antigos cenários e a linguagem digital do palco atual. É nesse encontro que a “Run For Your Lives” tem condições de dar conteúdo à comemoração dos 50 anos.

Provável Setlist:

Murders in the Rue Morgue
Wrathchild
Killers
Phantom of the Opera
The Number of the Beast
Infinite Dreams
Powerslave
2 Minutes to Midnight
Rime of the Ancient Mariner
Run to the Hills
Seventh Son of a Seventh Son
The Trooper
Hallowed Be Thy Name
Iron Maiden

Bis

Aces High
Fear of the Dark
Wasted Years

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