
O excesso de opiniões, a disputa pela atenção e a necessidade de julgar tudo imediatamente estão tomando o lugar de uma experiência que exige tempo: ouvir
Por Thiago Rahal Mauro
Tenho pensado no espaço que a música ocupa dentro das conversas sobre música. Parece uma questão estranha para quem trabalha com isso, mas basta acompanhar as discussões por alguns minutos. O vocalista falou demais, o guitarrista respondeu, a banda vendeu menos, o ingresso ficou caro, o festival anunciou alguém que não deveria estar ali. Quando finalmente chegamos ao disco, muitas vezes o julgamento já está pronto. Falta apenas ouvi-lo.
Escrevo isso como jornalista, assessor de imprensa e alguém que continua interessado em descobrir uma boa canção. Também faço parte desse ambiente em que tudo precisa circular depressa. Conheço a necessidade de encontrar uma chamada, publicar uma notícia e disputar alguns segundos de atenção. Justamente por isso, me incomoda perceber como a música pode acabar espremida entre o título que precisamos entregar e a próxima pauta que já está chegando.
A frase que dá título a este artigo é uma provocação, não uma estatística. Não acredito que as pessoas tenham simplesmente deixado de ouvir música. Ela nos acompanha o dia inteiro. Minha dúvida é sobre a qualidade dessa presença. Quanto conseguimos perceber de uma canção enquanto respondemos mensagens, abrimos outra página, conferimos uma notificação e procuramos a próxima coisa para ouvir?
Há uma diferença entre reconhecer que uma música tocou e ter alguma coisa a dizer sobre ela. Essa diferença parece desaparecer quando entramos nas redes sociais. Ali, alguns segundos podem bastar para decretar que um cantor acabou, que uma banda se vendeu ou que determinado álbum é o melhor desde aquele clássico lançado décadas atrás. O entusiasmo e a decepção são legítimos. O que me chama a atenção é a certeza.
Sinto falta de ler um “ainda não sei”. Um “preciso ouvir de novo”. Não por insegurança, mas por respeito ao que estamos tentando avaliar. Um disco pode reunir meses de composição, ensaios, escolhas e conflitos que chegaram até nós em quarenta ou cinquenta minutos. Ninguém é obrigado a gostar do resultado. Mas, se vamos discuti-lo, convém dedicar a ele mais atenção do que dedicamos à escolha de uma legenda.
No rock e no heavy metal, existe ainda uma dificuldade que conheço bem como ouvinte: nossos discos favoritos chegam acompanhados de uma parte da nossa vida. Há um amigo naquela música, uma fase naquele refrão, uma descoberta naquele solo. Ao ouvir um lançamento, comparamos composições, timbres e interpretações, mas também colocamos tudo isso diante de lembranças que tiveram anos para crescer dentro de nós.
O artista pode gravar outro grande álbum. Não consegue devolver nossa adolescência.
Isso ajuda a explicar certas cobranças, embora não deva servir de desculpa para trabalhos ruins. Há bandas que se acomodam, discos que repetem fórmulas e lançamentos que poderiam ter sido mais bem resolvidos. A crítica faz falta justamente nessas horas. Mas gostaria de encontrar mais argumentos sobre as canções e menos frases que poderiam ser copiadas de uma discussão para outra. O que ficou previsível? Onde a interpretação perdeu força? Qual escolha de produção comprometeu o resultado? Quando conseguimos responder, a conversa começa a valer a pena.
Também me incomoda a maneira como a admiração pode virar uma obrigação de defender. Gosto de artistas dos quais discordo e de bandas que já lançaram discos que não me interessam. Isso não diminui o que fizeram de importante para mim. A relação com a música fica muito estreita quando exige aprovação permanente. E fica igualmente pobre quando alguém passa a acompanhar uma carreira apenas para encontrar a próxima razão de desprezá-la.
Quem trabalha com informação musical precisa olhar para a própria participação nisso. Uma frase atravessada costuma render uma chamada mais fácil do que uma boa explicação sobre um arranjo. A reação de um músico pode circular mais do que o trabalho que motivou a entrevista. Não pretendo fingir surpresa com esse mecanismo, até porque também preciso fazer meus textos chegarem às pessoas. Mas acho necessário perguntar, de tempos em tempos, o que estamos ajudando o público a conhecer.
Se o leitor termina uma matéria sabendo com quem o artista brigou, mas sem nenhuma curiosidade pelo que ele compôs, talvez tenhamos deixado alguma coisa pelo caminho.
Na assessoria de imprensa, essa questão aparece por outro ângulo. Acompanhamos o esforço para colocar um lançamento em circulação, apresentar uma banda, conquistar uma entrevista, conseguir espaço para uma história. Existe trabalho de muita gente até que aquela música chegue ao público. Quando tudo desemboca em uma chamada genérica ou em um comentário feito sem escuta, perde-se a oportunidade de descobrir o que aquele artista tem a oferecer. Isso vale especialmente para quem ainda não tem um nome conhecido abrindo as portas.
E nós, que tanto reclamamos da falta de renovação, também precisamos fazer uma pergunta incômoda: quanto tempo damos a quem está começando? É fácil pedir novas bandas enquanto passamos por elas procurando um refrão que já conhecemos. Descobrir exige alguma disposição para estranhar. Às vezes a voz não agrada de imediato, a produção é diferente do que esperávamos, a composição segue por um caminho menos confortável. Pode ser ruim. Pode ser justamente o que tornará aquela banda interessante depois.
Não defendo um ritual obrigatório de audição. Há dias em que quero apenas colocar uma música e seguir com o que estou fazendo. Tampouco acredito que o passado tenha sido feito apenas de ouvintes atentos e críticos bem preparados. Sempre houve preconceito, modismo e opinião superficial. Hoje temos uma facilidade extraordinária para buscar referências, conhecer cenas e ouvir artistas aos quais dificilmente chegaríamos antes. Eu não abriria mão disso.
O que não quero perder é a possibilidade de me surpreender sem precisar anunciar imediatamente o que achei. Ouvir uma segunda vez porque algum detalhe ficou na cabeça. Voltar a um disco sobre o qual fui precipitado. Descobrir que uma música aparentemente simples tem uma interpretação que cresce a cada audição. Continuar curioso, mesmo depois de tantos anos trabalhando com artistas, notícias, entrevistas e shows.
Talvez esse seja o cuidado mais importante para quem fez da música também uma profissão. Entre prazos, pautas e compromissos, precisamos preservar o interesse que nos trouxe até aqui. A capacidade de parar diante de uma canção sem tratá-la apenas como assunto, material de divulgação ou oportunidade de publicação.
Quero continuar tendo o que escrever sobre música. Mas espero nunca chegar ao ponto de ter tanto a dizer que já não encontre tempo para ouvi-la.









