Por Thiago Rahal Mauro

Crédito: Brett Murray
Com 24 shows programados em Las Vegas, nos Estados Unidos, banda combina uma tela de quase 15 mil metros quadrados, produção cinematográfica e resgate de músicas ausentes dos palcos havia até 18 anos
O Metallica chegou à Sphere com uma vantagem que nenhuma tecnologia poderia fornecer: um repertório capaz de justificar o tamanho do espetáculo. Iniciada em 1º de outubro, a residência “Life Burns Faster”, em Las Vegas, tem 24 apresentações programadas até 13 de março de 2027. O projeto coloca quatro décadas de música diante de uma estrutura que modifica a própria relação entre palco e plateia. Pelos registros divulgados e pelas escolhas das primeiras noites, seu maior mérito está em usar essa escala para explorar a história da banda, inclusive suas partes menos previsíveis.
Os números ajudam a dimensionar a proposta. A Sphere possui 17.600 assentos e uma tela interna de aproximadamente 14.864 metros quadrados, com resolução de 16K por 16K e mais de 171 milhões de pixels. A superfície se estende pelas laterais e sobre o público, alterando a função tradicional do telão: as imagens passam a compor o ambiente em que o show acontece. Para o Metallica, cujo repertório atravessa temas como guerra, controle, medo e morte, essa arquitetura oferece possibilidades dramáticas bastante específicas.
A produção visual também ajuda a explicar por que a experiência ultrapassa a simples ampliação de imagens. Segundo o próprio grupo, o trabalho foi dividido entre Industrial Light & Magic e Treatment Studio. Na estreia, a primeira ficou responsável por sequências de músicas como “Sad but True”, “The Day That Never Comes” e “The Call of Ktulu”; a segunda desenvolveu, entre outras, as imagens de “…And Justice for All”, “Nothing Else Matters” e “Master of Puppets”. Existe uma construção individual para as composições, algo essencial para que a tecnologia tenha função artística.
“The Call of Ktulu” é um dos exemplos mais claros dessa integração. A criatura inspirada no universo de H. P. Lovecraft aparece em escala monumental, dando forma à ameaça sugerida pela instrumental de Ride the Lightning, de 1984. Em “…And Justice for All”, a figura da Justiça se desfaz durante a execução. As duas performances ganharam registros profissionais oficiais. O impacto vem da associação entre o desenvolvimento das músicas e uma linguagem visual que o público reconhece como parte daquele universo.
James Hetfield e Lars Ulrich representam duas forças complementares nesse projeto. Hetfield tem a responsabilidade de preservar a conexão humana em um ambiente no qual a tecnologia disputa cada olhar: sua entrega como vocalista e guitarrista dá às músicas a presença que nenhuma animação consegue substituir. Lars, além da bateria, representa o olhar empresarial que ajuda a transformar o catálogo do Metallica em projetos de grande alcance. A residência, organizada em duplas de apresentações com repertórios distintos e associada a pacotes de viagem e hospedagem, evidencia essa visão de negócio. Há uma estratégia para estimular o público a acompanhar duas noites, mas seu valor artístico depende da execução: enquanto a estrutura comercial vende uma experiência excepcional, Hetfield precisa tornar essa promessa convincente no palco.
Há, porém, um limite que merece atenção. A imagem pode ocupar tanto espaço físico e simbólico que os músicos passam a disputar o olhar do espectador com a própria produção. Nos vídeos que circulam pelas redes, esse desequilíbrio se acentua: a aparição de um monstro ou a queda de uma estátua cabem perfeitamente em poucos segundos. A tensão de uma instrumental, a sustentação de um riff e as mudanças de dinâmica precisam de tempo. Avaliar a residência apenas pelos trechos mais compartilhados significa reduzir o show justamente àquilo que pode ser consumido mais depressa.
É no repertório que o Metallica apresenta seu argumento mais convincente. As duas primeiras noites seguiram o conceito dos “No Repeat Weekends”, sem repetição de músicas entre quinta-feira e sábado. Pelas listas oficiais, foram 15 canções completas em cada apresentação, além de um segmento de Kirk Hammett e Robert Trujillo em cada noite. Portanto, 30 músicas diferentes, acompanhadas pelos dois duetos — uma distinção importante diante de contagens que tratam todas as entradas do setlist como canções completas.
Mais revelador do que a quantidade é o que foi recuperado. “…And Justice for All” voltou em 1º de outubro depois de sua última execução em 9 de agosto de 2014, em Montreal. Dois dias depois, “Devil’s Dance” reapareceu pela primeira vez desde 7 de junho de 2008, no Rock am Ring, encerrando um intervalo superior a 18 anos. “The Outlaw Torn” também retornou: sua apresentação anterior havia ocorrido em setembro de 2019, nos concertos do S&M2, em São Francisco. São escolhas que dão à temporada uma razão musical para existir além da novidade tecnológica.
A presença dessas faixas permite uma leitura mais ampla da trajetória do grupo. “Devil’s Dance” e “The Outlaw Torn” abrem espaço para o Metallica de andamento mais arrastado, que trabalha peso, atmosfera e repetição. Ao lado de “King Nothing”, também executada na segunda noite, elas recuperam características de Load e Reload que frequentemente ficam em segundo plano diante dos clássicos dos anos 1980. A residência ganha interesse porque coloca essas diferentes concepções de peso dentro do mesmo projeto.
O contraste entre as aberturas e os encerramentos reforça essa amplitude. A estreia começou com “Battery” e terminou com “Master of Puppets”; o segundo show abriu com “Blackened” e fechou com “Enter Sandman”. Entre esses extremos, houve espaço para “The Shortest Straw”, “Orion”, “The Unforgiven” e material recente, como “Lux Æterna” e “72 Seasons”. O público encontra pontos conhecidos, mas precisa acompanhar caminhos diferentes até eles. Essa organização evita que duas noites sejam apenas variações superficiais de um mesmo roteiro.
Também existe uma dimensão comercial evidente. Os pacotes oficiais incluem ingressos para as duas apresentações e três noites de hospedagem, além de itens exclusivos. A experiência completa foi estruturada como viagem e permanência em Las Vegas. Isso ajuda a compreender o modelo: a residência concentra público, produção e consumo em um destino específico, com uma estrutura que não pode acompanhar a banda numa turnê convencional. Seu alcance artístico pode ser amplo; seu acesso presencial depende de condições financeiras e logísticas muito particulares.
O Metallica na Sphere oferece uma demonstração relevante de como uma banda veterana pode reapresentar seu catálogo. A tecnologia acrescenta escala, cenários e novas associações às músicas. A decisão de recuperar composições ausentes havia anos acrescenta conteúdo. É nessa combinação que a residência encontra sua força: a criatura de “The Call of Ktulu” chama a atenção imediatamente, mas a construção musical que permite sua aparição continua sendo o motivo para permanecer até o fim.









