Texto: Thiago Rahal Mauro

Crédito: Guns N’ Roses
Há festivais que se limitam a empilhar atrações de peso em sequência, confiando apenas no impacto dos nomes no cartaz. O Monsters of Rock 2026, realizado pela Mercury Concerts no dia 4 de abril em São Paulo, buscou algo maior: construiu uma longa travessia pela história, pela permanência e pelas várias formas de o rock seguir ocupando espaço em pleno 2026. Ao longo de mais de onze horas de música, o evento reuniu bandas de diferentes gerações, estéticas e estágios de carreira, costurando um roteiro que começou sob a luz dura do fim da manhã e terminou com um estádio completamente entregue a um repertório de clássicos, virtuosismo e catarse coletiva. Foi um festival de contrastes claros, daqueles em que a identidade não está apenas no peso das atrações principais, mas na maneira como cada show vai preparando o terreno emocional do próximo.
Também foi um dia em que a experiência de festival apareceu em sua forma mais clássica. Público chegando cedo, circulação ainda tímida nas primeiras apresentações, arquibancadas e pista ganhando corpo com o passar das horas, e a sensação de que o evento se transformava a cada faixa, a cada troca de luz, a cada mudança de temperatura. Nesse percurso, os apresentadores Walcir Chalas, da tradicional loja Woodstock, e Eddie Trunk, nome histórico do programa That Metal Show, tiveram papel importante. Antes de cada banda, os dois surgiam no palco para conduzir as apresentações com o tom cerimonial adequado a um festival que carrega uma marca histórica.
O que mais chamou atenção, porém, foi a capacidade do Monsters of Rock 2026 de reunir diferentes noções de grandeza dentro do mesmo evento. Houve espaço para a luta das bandas que ainda buscavam provar seu valor diante de um público em formação, para o virtuosismo quase barroco de Yngwie Malmsteen, para a força contemporânea e afirmativa do Halestorm, para a inteligência musical do Extreme, para o peso simbólico do Lynyrd Skynyrd e, no encerramento, para a mistura de caos, mito e espetáculo que ainda acompanha o Guns N’ Roses. Em vez de um festival linear, o que se viu foi uma narrativa como se cada apresentação reposicionasse o público dentro de uma nova era do rock.
Se havia uma promessa implícita no line up, era a de que o dia terminaria em estado de exaltação. Mas o mérito do festival esteve também em valorizar o caminho até ali. O Monsters of Rock 2026 foi um evento de construção, de progressão dramática, de crescimento contínuo. Começou como uma manhã de observação, virou tarde de afirmação artística e desaguou numa noite de celebração plena. Foi, acima de tudo, um festival que entendeu algo essencial: no rock, a memória importa, mas o palco continua sendo o verdadeiro tribunal.

Eddie Trunk – Crédito: Ricardo Matsukawa

Walcir Chalas – Crédito: Ricardo Matsukawa
Jayler
Abrir um festival desse porte às 11h30 exige mais do que competência. Exige leitura de ambiente, consciência de função e sangue frio para tocar enquanto o público ainda está chegando, buscando lugar e entendendo o ritmo do dia. O Jayler encarou esse contexto sem afetação. Formado por James Bartholomew (vocal e guitarra), Tyler Arrowsmith (guitarra), Ricky Hodgkiss (baixo) e Ed Evans (bateria), a banda liderou a apresentação com boa presença, e soube trabalhar dentro do espaço que tinha, sem forçar grandeza artificial. O repertório revelou um grupo interessado em dialogar com a tradição do hard rock e do rock setentista, mas tentando fazê-lo com alguma vitalidade própria. “Down Below” e “The Getaway” funcionaram bem como porta de entrada para um set direto e honesto.
Ainda assim, o show deixou clara a fase em que a banda se encontra. Há energia e há boas intenções, mas a identidade ainda parece em construção, sobretudo quando a influência das referências salta mais aos ouvidos do que uma assinatura realmente particular. Isso não comprometeu a apresentação, que teve seus méritos, especialmente em “Riverboat Queen”, “Lovemaker” e na escolha inesperada de “I Believe to My Soul”, inserida com certa naturalidade no contexto do show. No fim, com “Over the Mountain” e “The Rinsk”, o Jayler cumpriu bem seu papel: abriu o dia com dignidade, segurou a atenção possível naquele horário e mostrou potencial para crescer.
Setlist
Down Below
The Getaway
No Woman
Riverboat Queen
Lovemaker
I Believe to My Soul
Need Your Love
Over the Mountain
The Rinsk

Jayler – Crédito: Ricardo Matsukawa
Dirty Honey
Às 12h30, o Dirty Honey, formado por Marc LaBelle (vocal), John Notto (guitarra), Justin Smolian (baixo) e Jason Ganberg (bateria), já encontrou um cenário mais favorável, com público mais presente e maior disposição para embarcar no clima do festival. A banda norte-americana soube usar essa vantagem com eficiência. Marc LaBelle é um frontman seguro, daqueles que entendem o peso do gesto, da postura e da comunicação imediata com o público. Desde “Won’t Take Me Alive”, o grupo mostrou saber exatamente qual linguagem fala: hard rock de arena, refrães bem desenhados, riffs acessíveis e uma execução que privilegia impacto instantâneo. “California Dreamin’”, “Heartbreaker” e “The Wire” reforçaram essa proposta com competência.
O Dirty Honey talvez não seja uma banda particularmente surpreendente, mas é inegavelmente funcional ao vivo. Há coesão e há uma confiança de palco que ajuda muito em contexto de festival. Em alguns momentos, o grupo parece confortável demais dentro de um campo estético já bastante conhecido, mas isso não chega a se tornar problema quando a entrega é consistente. “Don’t Put Out the Fire”, “Another Last Time”, “Lights Out”, “When I’m Gone” e “Rolling 7s” mantiveram o set em boa rotação e consolidaram a sensação de um show redondo. Não foi arrebatador, mas foi convincente, e isso, no começo de um dia longo, tem valor real.
Setlist
Won’t Take Me Alive
California Dreamin’
Heartbreaker
The Wire
Don’t Put Out the Fire
Another Last Time
Lights Out
When I’m Gone
Rolling 7s

Dirty Honey – Crédito: Ricardo Matsukawa
Yngwie Malmsteen
Yngwie Malmsteen, o maestro da guitarra, subiu ao palco às 13h45 para mudar completamente a temperatura do festival. Se até ali a lógica era a da canção direta, o guitarrista sueco trouxe uma apresentação centrada na exibição técnica, no excesso assumido e no virtuosismo como linguagem principal. Desde “Rising Force”, ficou claro que o show seria menos uma negociação com o público casual e mais uma reafirmação de seu universo particular. Com apoio consistente de Nick Marino (teclado e vocal), Emi Martinez (baixo) e Mark Ellis (bateria), Yngwie comandou um set que passeou por várias fases de sua carreira, sempre com a guitarra ocupando o centro absoluto da experiência.
Como quase sempre acontece em suas apresentações, a linha entre fascínio e saturação esteve presente o tempo todo. Há momentos em que Malmsteen parece tocar para um templo particular erguido em torno de sua própria mitologia, e isso pode afastar quem busca dinâmica coletiva ou maior senso de canção. Mas também seria impossível negar a força do espetáculo. “Wicked”, “Soldier”, “Into Valhalla”, “Relentless Fury” e “Now Your Ships Are Burned” mantiveram a tensão alta, enquanto “Badinere”, “Paganini’s 4th / Adagio”, a passagem por “Smoke on the Water”, cantada por Malmsteen, e o encerramento de “Trilogy Suite Op: 5” reafirmaram o caráter grandioso e teatral do set. Fechar com “I’ll See the Light Tonight” foi a maneira certa de devolver o show ao terreno do clássico. Yngwie foi exatamente o que se esperava dele: excessivo, brilhante, autocentrado e hipnótico.
Setlist
Rising Force
Top Down, Foot Down
No Rest for the Wicked
Soldier
Into Valhalla
Baroque And Roll
Relentless Fury
Now Your Ships Are Burned
Wolves at the Door
Concerto #4 / Adagio / Far Beyond the Sun / Bohemian Rhapsody
Fire and Ice
Evil Eye
Smoke on the Water (Deep Purple cover)
Trilogy Suite Op: 5
Overture
Badinerie / Black Star
I’ll See the Light Tonight

Malmsteen – Crédito: Ricardo Matsukawa
Halestorm
Formação: Lzzy Hale (vocal), Josh Smith (baixo), Joe Hottinger (guitarra) e Arejay Hale (bateria)
O Halestorm entrou às 15h15 como quem sabia perfeitamente que o festival precisava virar de chave. E virou. Desde os primeiros minutos de “Fallen Star”, a banda norte-americana impôs uma presença muito diferente da que havia dominado o dia até então. Mais do que peso, havia uma novidade no ar. A banda é formada por Lzzy Hale (vocal), Josh Smith (baixo), Joe Hottinger (guitarra) e Arejay Hale (bateria). Lzzy Hale tomou o palco com a segurança de uma artista que domina a própria linguagem e entende como mobilizar um público heterogêneo em ambiente de festival. “Mz. Hyde”, “I Miss the Misery” e “Love Bites (So Do I)” foram executadas com precisão e muita personalidade, sem a menor sensação de piloto automático.
Uma das grandes virtudes do Halestorm ao vivo é a maneira como a banda equilibra impacto e comunicação. Josh Smith, Joe Hottinger e Arejay Hale oferecem base firme, mas tudo se reorganiza ao redor da figura de Lzzy, uma frontwoman que sabe ser agressiva, magnética e emocional sem perder controle em nenhum momento. Em “WATCH OUT!” e “Like a Woman Can”, isso ficou evidente. O Halestorm não toca apenas para preencher espaço com distorção e refrão. Toca para afirmar presença, discurso e relevância. Em um festival com tantos nomes históricos, a banda soou atual e necessária.
A parte central do show foi especialmente forte porque mostrou que o grupo sabe desacelerar sem perder tensão. “I Get Off” manteve o público conectado, mas “Familiar Taste of Poison” e “Rain Your Blood on Me” trouxeram densidade emocional a uma tarde que até ali havia sido marcada sobretudo por energia e técnica. O Halestorm conseguiu criar atmosfera, algo nem sempre fácil em contexto de festival, ainda mais num horário em que a luz do dia ainda impõe certa frieza visual. Foi justamente ali que a banda se diferenciou, provando que seu peso não depende só de impacto físico, mas também de construção dramática.
No trecho final, “Freak Like Me”, “Wicked Ways” e “I Gave You Everything” consolidaram uma apresentação que foi além do eficiente. O Halestorm entregou um dos shows mais completos do evento até aquele momento. Repertório, domínio de palco, leitura precisa do público e, acima de tudo, convicção artística. Em um dia cheio de nomes consagrados por décadas passadas, a banda apareceu como prova de que o rock pesado ainda consegue soar contemporâneo sem pedir licença à nostalgia.
Setlist
Fallen Star
Mz. Hyde
I Miss the Misery
Love Bites (So Do I)
WATCH OUT!
Like a Woman Can
I Get Off
Familiar Taste of Poison
Rain Your Blood on Me
Freak Like Me
Wicked Ways
I Gave You Everything

Halestorm – Crédito: Ricardo Matsukawa

Halestorm – Crédito: Ricardo Matsukawa
Extreme
O Extreme subiu ao palco às 16h45 com um início de chuva forte naquela tarde ensolarada e uma responsabilidade dupla: suceder um show forte e, ao mesmo tempo, corresponder ao tamanho do próprio legado. Gary Cherone e Nuno Bettencourt, eixos centrais da apresentação, conduziram o set com a experiência de quem sabe exatamente como dosar carisma, repertório e força no palco. “It’s a Monster” e “Decadence Dance” abriram os trabalhos em alta rotação, e “#REBEL” mostrou que a banda não depende exclusivamente do passado para sustentar sua presença. Havia fome de palco, e isso ficou claro desde os primeiros minutos. A chuva parou rapidamente e o público se refez ao longo do set.
Naturalmente, Nuno foi um espetáculo à parte. Seu talento é antigo, conhecido e amplamente celebrado, mas ao vivo continua impressionando não apenas pela técnica, e sim pela capacidade de transformar técnica em discurso musical. “Play With Me”, com a introdução de “We Will Rock You”, serviu como vitrine disso. Já Gary Cherone mostrou um desempenho muito sólido, sem soar refém da nostalgia. Cantou bem, ocupou o palco com personalidade e ajudou a fazer do show algo maior do que uma simples vitrine de virtuosismo guitarrístico.
A apresentação ganhou outra camada em “Am I Ever Gonna Change” e “THICKER THAN BLOOD”, músicas que trouxeram mais densidade e quebraram a possibilidade de um set excessivamente apoiado apenas em energia e exibicionismo. “Hole Hearted” funcionou como respiro, e “Midnight Express” foi o momento em que o Monsters of Rock praticamente parou para assistir Nuno Bettencourt trabalhar. Não se tratou apenas de um solo ou de uma passagem instrumental bem executada. Foi um lembrete de como alguns músicos conseguem fazer da guitarra uma forma de narrativa completa.
Quando chegou “More Than Words”, o reconhecimento coletivo era inevitável, mas o mérito do Extreme esteve em não permitir que essa música sequestrasse a apresentação. “Get the Funk Out” devolveu tudo ao lugar do groove e da energia, e “RISE” encerrou o show de maneira firme, atual e coerente com a proposta da banda. O Extreme fez o que veteranos inteligentes precisam fazer: honrou o passado, mostrou vigor no presente e evitou transformar o palco em museu.
Setlist
It (‘s a Monster)
Decadence Dance
#REBEL
Play With Me
Am I Ever Gonna Change
THICKER THAN BLOOD
Hole Hearted
Flight of the Wounded Bumblebee
Midnight Express
More Than Words
Get the Funk Out
RISE

Publico – Crédito: Ricardo Matsukawa

Extreme – Crédito: Ricardo Matsukawa

Extreme – Crédito: Ricardo Matsukawa

Extreme – Crédito: Ricardo Matsukawa
Lynyrd Skynyrd
Quando o Lynyrd Skynyrd subiu ao palco às 18h15, não era apenas mais uma banda histórica ocupando um horário nobre do festival. Era a entrada de um nome que carrega, ao mesmo tempo, glória, luto, resistência e permanência. Poucos grupos na história do rock foram tão profundamente atravessados pela tragédia quanto o Lynyrd Skynyrd. Fundada em Jacksonville, na Flórida, nos anos 1960 e transformada em uma das maiores instituições do southern rock nos anos 1970, a banda ajudou a moldar um som, uma estética e uma identidade profundamente ligadas ao sul dos Estados Unidos. Mas essa trajetória foi brutalmente interrompida em 1977, quando um acidente aéreo matou o vocalista Ronnie Van Zant, o guitarrista Steve Gaines, a backing vocal Cassie Gaines e membros da equipe, congelando precocemente uma ascensão que parecia não ter teto.
A partir dali, o Lynyrd Skynyrd deixou de ser apenas uma banda e passou a existir também como memória e herança. O retorno no fim dos anos 1980, já com Johnny Van Zant assumindo os vocais, nunca foi uma tentativa de apagar o passado, mas de carregá-lo adiante com respeito e enorme responsabilidade. Ao longo das décadas, novas perdas foram se somando, incluindo nomes fundamentais como Allen Collins, Leon Wilkeson, Billy Powell, Ean Evans, Gary Rossington e, mais recentemente, o peso inevitável de seguir sem seus pilares originais em cena. Ver o Lynyrd Skynyrd em 2026, portanto, é necessariamente encarar essa história. Não se trata de procurar autenticidade num sentido purista ou de cobrar que o grupo reproduza algo irrecuperável. Trata-se de observar como um repertório atravessado pela morte, pelo tempo e pela reconstrução ainda consegue soar vivo diante de milhares de pessoas.
E foi justamente isso que a banda entregou. Formada atualmente por Johnny Van Zant (vocal), Rickey Medlocke (guitarra), Mark Matejka (guitarra), Damon Johnson (guitarra), Michael Cartellone (bateria), Peter Keys (piano), Robbie Harrington (baixo) e Carol Chase e Stacy Michelle (backing vocals), a banda iniciou o show com “Workin’ for MCA”, “What’s Your Name” e “That Smell” com autoridade. O Lynyrd Skynyrd sabe que sua força hoje está menos em tentar parecer uma banda rejuvenescida e mais em sustentar, com dignidade e firmeza, um cancioneiro que virou patrimônio afetivo do rock. Johnny Van Zant não tenta ser Ronnie, e esse talvez seja um dos pontos mais honestos dessa encarnação. Ele ocupa o posto com consciência de legado, sem cair na armadilha da caricatura, enquanto Rickey Medlocke assume parte importante da energia de palco com a vivência de quem também faz parte dessa história há muitas décadas.
O show cresceu à medida que a banda se apoiou menos no símbolo e mais na consistência musical. “I Need You”, “Gimme Back My Bullets” e “Saturday Night Special” mantiveram o set firme, com boas camadas de guitarra e andamento sólido, enquanto “Down South Jukin’”, “Still Unbroken” e “The Needle And The Spoon” mostraram que ainda existe pulsação real ali, não apenas reverência. O Lynyrd Skynyrd poderia facilmente soar como uma homenagem permanente a si mesmo. Em vez disso, encontrou calor e alguma vitalidade dentro de um formato que, pela própria natureza, já carrega solenidade demais.
Mas foi na reta emocional do show que todo esse contexto histórico encontrou seu verdadeiro sentido. “Tuesday’s Gone” e, sobretudo, “Simple Man” ganharam outra dimensão quando atravessadas pela biografia da banda. Em grupos comuns, essas músicas já seriam fortes. No Lynyrd Skynyrd, elas vêm marcadas por tudo o que aconteceu antes e depois delas. Cada verso parece carregar não apenas a memória dos que partiram, mas o esforço contínuo de manter de pé algo que já foi atingido muitas vezes e, ainda assim, seguiu adiante. Quando “Sweet Home Alabama” transformou o estádio em coro coletivo e “Free Bird” encerrou a apresentação com a carga épica e ritualística que a música exige, o que se viu não foi apenas um desfile de clássicos. Foi um testemunho de sobrevivência.
Não foi o show mais moderno, nem o mais ousado, nem o mais tecnicamente impressionante do Monsters of Rock. Mas talvez tenha sido um dos mais pesados em significado. O Lynyrd Skynyrd de 2026 já não é apenas uma banda em atividade. É uma estrutura de memória em movimento, um repertório que se recusa a desaparecer e uma prova de que certos nomes ultrapassam a lógica comum da carreira para entrar no campo da permanência histórica. E ao vivo, diante de um festival dessa grandeza, isso teve um peso difícil de ignorar.
Setlist
Workin’ for MCA
What’s Your Name
That Smell
I Need You
Gimme Back My Bullets
Saturday Night Special
Down South Jukin’
Still Unbroken
The Needle And The Spoon
Tuesday’s Gone
Simple Man
Gimme Three Steps
Call Me The Breeze
Red White & Blue (Love It Or Leave)
Sweet Home Alabama
Free Bird

Lynyrd Skynyrd – Crédito: Ricardo Matsukawa

Lynyrd Skynyrd – Crédito: Ricardo Matsukawa

Lynyrd Skynyrd – Crédito: Ricardo Matsukawa

Lynyrd Skynyrd – Crédito: Ricardo Matsukawa
Guns N’ Roses
Fechar um Monsters of Rock é mais do que encerrar um line-up. É assumir a responsabilidade de em um único show, toda a expectativa acumulada ao longo de um dia inteiro de festival. O Guns N’ Roses entrou às 20h30 com esse peso nos ombros e com algo mais: a condição de nome que transcende o próprio circuito do hard rock e já opera num campo quase mitológico da cultura popular. Havia no estádio a sensação de que tudo havia sido construído para chegar àquele momento. Atualmente,o Guns N’ Roses é formado por Axl Rose (vocal), Slash (guitarra), Duff McKagan (baixo), Richard Fortus (guitarra), Isaac Carpenter (bateria) e Dizzy Reed (teclados/piano).
E o início do show correspondeu a essa expectativa com força. “Welcome to the Jungle” explodiu como deveria explodir, e a sequência com “Slither”, “It’s So Easy” e “Live and Let Die” colocou o Allianz Parque em estado de euforia imediata. Poucas bandas ainda conseguem produzir esse tipo de reação coletiva com tanta velocidade. Em “Slither”, houve um momento curioso: Axl Rose se aproximou de Slash e, sem perceber que o vocalista estava por perto, o guitarrista girou a guitarra durante a performance e acabou acertando o rosto de Axl. Em outros tempos, isso talvez causasse apreensão na equipe da banda, mas o cantor levou a situação na esportiva e seguiu o show como se nada tivesse acontecido.
É claro que ver o Guns N’ Roses em 2026 implica lidar com comparações inevitáveis com outras fases da banda. Isso acompanha o grupo como uma sombra permanente. Mas talvez o olhar mais justo seja outro. Axl Rose já não canta da mesma forma que em outras décadas, algo natural diante do tempo e da longa trajetória da banda, mas isso em nenhum momento diminuiu a força de sua presença no palco. Mais do que buscar comparação com o passado, o show evidenciou um artista que segue carismático, dono de uma identidade única e plenamente capaz de conduzir uma apresentação desse porte. Ao seu redor, há também uma banda madura, segura e consciente do próprio tamanho, que sabe transformar essa história em espetáculo com autoridade. “Mr. Brownstone”, “Bad Obsession” e “Rocket Queen” soaram pesadas, vivas e cheias de balanço, como se o grupo ainda soubesse acessar aquela mistura específica de decadência glamourosa e rua que moldou sua identidade.
Um dos aspectos mais interessantes do show foi a escolha de não transformar o set em uma sequência óbvia de maiores sucessos. “Perhaps”, “Dead Horse”, “Double Talkin’ Jive”, “Nothin’” e “You Could Be Mine” mostraram uma banda disposta a oferecer um recorte mais amplo de seu universo, preservando certa imprevisibilidade dentro do gigantismo. “Civil War” apareceu com força renovada, e as inclusões de “Junior’s Eyes”, do Black Sabbath, em homenagem à Ozzy Osbourne, “Knockin’ on Heaven’s Door”, de Bob Dylan, e “New Rose”, do The Damned, ampliaram o alcance do show, conectando o Guns a outras linhagens do rock que sempre fizeram parte de sua formação estética.
Slash, como de costume, ocupou um lugar à parte dentro da apresentação. Seu solo não foi apenas um momento protocolar reservado ao guitarrista estrela. Foi uma reafirmação de linguagem. Seu fraseado continua imediatamente reconhecível, sua presença segue monumental e sua capacidade de transformar poucos segundos de melodia em assinatura permanece intacta. Quando a banda entrou em “Sweet Child O’ Mine”, o estádio chegou a um de seus ápices emocionais mais evidentes. É uma música tão absorvida pela cultura pop que quase corre o risco de ser tratada como inevitável. Mas ao vivo, na mão certa, ela ainda encontra meios de parecer gigantesca.
A reta final do show foi construída com inteligência dramática. “Estranged” trouxe melancolia, ambição e uma dimensão épica que sempre diferenciou o Guns N’ Roses de boa parte de seus contemporâneos. “Bad Apples” apareceu como bônus valioso para quem gosta de olhar além do repertório mais previsível, e “November Rain” fez o que sempre faz: suspendeu o tempo, recolocou o romantismo grandioso da banda no centro da cena e fez milhares de pessoas cantarem como se aquela música pertencesse à biografia de cada uma delas. Há canções que já passaram por todos os filtros da crítica, mas continuam inalcançáveis quando o assunto é impacto emocional coletivo.
“Nightrain” e “Paradise City” encerraram a noite em estado de explosão, como o headliner de um festival desse porte precisa encerrar. E talvez esse seja o melhor resumo possível do show e do próprio Monsters of Rock 2026. O Guns N’ Roses não entregou perfeição, e nem precisava. Entregou grandeza, repertório, presença e a sensação inequívoca de acontecimento. Fechou o festival como um nome desse tamanho deve fechar: arrastando tudo para a esfera da catarse. Ao final, o que ficou foi a impressão de que o Monsters of Rock 2026 soube conduzir o público por uma jornada completa, da curiosidade matinal à exaustão feliz da noite. E o Guns, com todas as suas contradições, excessos e marcas do tempo, foi o desfecho certo para essa história.
Setlist
Welcome to the Jungle
Slither
It’s So Easy
Live and Let Die
Mr. Brownstone
Bad Obsession
Rocket Queen
Perhaps
Dead Horse
Double Talkin’ Jive
Nothin’
You Could Be Mine
Civil War
Junior’s Eyes
Knockin’ on Heaven’s Door
New Rose
Atlas
Solo de guitarra de Slash
Sweet Child O’ Mine
Estranged
Bad Apples
November Rain
Nightrain
Paradise City

Crédito: Guns N’ Roses

Crédito: Guns N’ Roses

Crédito: Guns N’ Roses

Crédito: Guns N’ Roses

Crédito: Guns N’ Roses
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