Texto por Thiago Rahal Mauro

Ser fã é encarar uma pergunta que nunca termina, eu sigo a marca ou sigo as pessoas? Quando o vocal muda, a identidade muda junto, e é nesse choque que descubro se minha fidelidade está na canção, no timbre ou no logo. Aprendi a ouvir com memória e, ao mesmo tempo, a julgar o presente pelo que ele entrega hoje, sem pedir que o passado se repita.
Iron Maiden é o mapa dessa tensão, começou com Paul Di’Anno com pegada crua, saltou para Bruce Dickinson com épicos e alcances altos, trocou para Blaze Bayley nos anos 90 com outros timbres, e reconectou o próprio quando Bruce voltou, cada mudança reposicionou o eixo estético, e eu sigo porque, mesmo com sotaques diferentes, a composição e a arquitetura das músicas sustentam a história que me prende.
AC/DC mostrou como atravessar eras sem perder o coração, Dave Evans foi a semente, Bon Scott virou lenda e consolidou a fase setentista, Brian Johnson levou a linguagem às arenas e embalou clássicos, em 2016 Axl Rose assumiu como substituto de turnê e segurou compromissos. Para mim o riff manda e a voz sela o pacto, a memória coletiva ancora o grupo em Bon e Brian, mas não apaga o que veio depois quando há entrega.
Quando o catálogo é longo e a estrada é turbulenta, a troca de vozes vira capítulo inevitável, Deep Purple saiu de Rod Evans, explodiu com Ian Gillan, migrou para David Coverdale com Glenn Hughes dividindo vocais, teve Joe Lynn Turner num período curto e voltou a Gillan. Judas Priest viveu arco parecido, Rob Halford saiu, Tim Ripper Owens assumiu, Halford retornou, nessas bandas eu enxergo cores diferentes da mesma marca e escolho a fase que melhor serve à canção.
No sinfônico e no hard a assinatura vocal é metade da experiência, Nightwish passou por Tarja Turunen com lirismo operístico, depois Anette Olzon com pop sombrio, hoje Floor Jansen costura técnica e presença. Van Halen saiu de David Lee Roth com malícia, entrou na fase melódica com Sammy Hagar, arriscou com Gary Cherone e encerrou com o retorno de Roth aos palcos, Helloween começou com Kai Hansen cantando nos primórdios, subiu a régua com Michael Kiske, estabilizou com Andi Deris e, no Pumpkins United, somou eras com Kiske e Hansen de volta, aqui eu sigo a banda porque a canção continua falando alto.
No power metal e arredores as mudanças redesenham o DNA, Stratovarius teve Timo Tolkki cantando no início e consolidou a linguagem quando Timo Kotipelto assumiu, Kamelot saiu de Mark Vanderbilt, atingiu seu auge dramático com Roy Khan e hoje caminha firme com Tommy Karevik, Arch Enemy trocou Johan Liiva por Angela Gossow e depois por Alissa White Gluz mantendo a ferocidade com outra textura, Accept viveu Udo Dirkschneider, testou David Reece, voltou a Udo e encontrou fôlego novo com Mark Tornillo, eu acompanho quando sinto propósito e não apenas continuidade administrativa.
No peso norte americano os timbres definem a fisionomia do som, Pantera trocou Terry Glaze por Phil Anselmo e mudou de pele, Skid Row saiu de Sebastian Bach e atravessou Johnny Solinger, Tony Harnell, ZP Theart e Erik Grönwall em busca de um ponto de equilíbrio, Exodus alternou Paul Baloff, Steve Zetro Souza, Rob Dukes e retornou a Zetro, Queensrÿche rompeu com Geoff Tate e estabilizou com Todd La Torre, nesses casos eu escolho era por era, canção por canção, sem culpa de preferir um recorte a outro.
No Brasil a pluralidade virou regra, Angra viveu Andre Matos com lirismo e virtuosismo, depois Edu Falaschi com melodia e peso modernos, hoje Fabio Lione com potência e versatilidade, Sepultura seguiu após a saída de Max Cavalera com Derrick Green, outra dicção e outro corpo, mas com identidade, Nervosa trocou Fernanda Lira por Diva Satanica e hoje tem Prika Amaral nos vocais, eu acompanho quando o novo timbre honra a música e empurra a banda para frente sem virar réplica.
No fim, minha régua é simples e opinativa, composição forte, assinatura viva e palco, se a nova voz conversa com o passado e entrega presente, eu fico, se a faísca migrou com o músico que saiu, eu vou junto, às vezes dá para seguir os dois caminhos e esse é o melhor dos mundos, porque o que me prende não é o CNPJ da banda nem o crachá do vocalista, é a honestidade artística que transforma som em história e faz a gente apertar o play de novo.
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