RESENHA: Megadeth (2026)

23/01/2026 // Home  »  DestaqueNotíciasResenha de Discos   »   RESENHA: Megadeth (2026)

Texto por Thiago Rahal Mauro
Gravadora: BlkIIBlk/Shinigami Records
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Megadeth 2026

Lançado nesta sexta-feira, 23 de janeiro de 2026, o novo álbum “Megadeth” chega cercado por um peso que não é só musical: ele vem sendo apresentado como o 17º e último disco de estúdio da banda. E o que mais chama atenção é como Dave Mustaine transforma esse “último” em linguagem. Não tem clima de aposentadoria, não tem aceno nostálgico fácil, não tem tentativa de virar “clássico instantâneo” pela força do contexto. O disco soa como uma declaração de identidade, com produção seca e agressiva (Mustaine ao lado de Chris Rakestraw) e uma execução que passa a sensação de banda tocando junto de verdade, com Teemu Mäntysaari trazendo energia nova nas guitarras, James LoMenzo devolvendo corpo ao baixo e Dirk Verbeuren sustentando tudo com precisão cirúrgica na bateria.

A sequência das faixas ajuda a entender o que Dave Mustaine quis passar. “Tipping Point” abre o álbum como um soco direto, veloz, daqueles que lembram por que o Megadeth sempre foi mais lâmina do que martelo, mais nervo do que peso. Em seguida, “I Don’t Care” entra com cara de faixa feita para grudar, com refrão mais objetivo, mas sem abandonar o veneno típico do Mustaine, que aqui parece escolher a síntese em vez de exagerar em malabarismo. “Hey, God?!” muda o clima sem perder tensão: é onde ele se permite mais reflexão, com aquela combinação de sarcasmo e inquietação que sempre foi uma assinatura do frontman, e que algumas resenhas lá fora apontaram como um dos momentos em que o álbum respira “legado”, não só raiva.

Aí vem “Let There Be Shred”, e o título já diz o que é: um manifesto de guitarra, mas não no sentido vazio de “olha como eu toco”, e sim como motor da música, com riffs construídos para acelerar e solos pensados como argumento. É também uma faixa que deixa claro o encaixe do Teemu: ele não tenta imitar ninguém, mas conversa com o vocabulário do Megadeth com naturalidade, alternando precisão moderna com a aspereza que a banda exige. Quando Mustaine canta, “Let There Be Shred”, na sequência vem um solo muito técnico, é exatamente o que o fã da banda mais raiz se encontra. “Puppet Parade” dá aquela guinada que eu gosto quando o Megadeth faz: menos tiro de metralhadora, mais “música com cena”, quase uma ironia cantada, e não por acaso alguns críticos enxergaram nela um aceno à fase mais melódica e acessível da banda nos anos 1990, só que com sangue atual.

No miolo, o álbum trabalha sustentação e consistência. “Another Bad Day” tem o tipo de riff que parece simples até você perceber o quanto ele foi talhado para “andar” com a bateria, e aqui o Dirk brilha por segurar a faixa com firmeza sem deixar tudo previsível. “Made to Kill” volta a acelerar com aquela sensação de perseguição constante, um thrash que não quer ser elegante, quer ser eficiente, e LoMenzo ajuda a dar peso de chão, aquele grave que faz a música parecer maior do que o BPM. “Obey the Call” é onde o Megadeth encosta de novo nas paranoias e conspirações que sempre rondaram o universo do Mustaine, e a crítica internacional se dividiu: tem quem ache que é tema cansado, e tem quem veja isso como parte inseparável do personagem. Musicalmente, eu fico com o que importa: a faixa tem tensão e construção, e segura o álbum sem cair no piloto automático.

“I Am War” entra como uma espécie de cartaz levantado no meio do caminho, com a banda soando encaixada e segura de si, quase como se lembrasse que o Megadeth sempre foi um organismo de combate, mesmo quando muda de formação. E então chegamos ao fechamento “oficial” do tracklist: “The Last Note”. Ela não fecha com melodrama, fecha com peso emocional contido, com uma aura de epílogo que alguns veículos lá fora destacaram como um encerramento realmente pungente. Para mim, é o momento em que Mustaine parece olhar para o próprio percurso sem pedir perdão nem aplauso: ele apenas conclui, como quem desliga o amplificador e deixa o silêncio dizer o que o ruído já disse por quatro décadas.

Só que o Megadeth não seria Megadeth se a última palavra fosse só “fim”. O álbum ainda guarda a faixa bônus “Ride the Lightning”, e aqui a coisa ganha camadas demais para ser tratada como “cover”. O próprio Mustaine explicou que incluiu a música para “fechar o círculo” da carreira, prestando respeito ao ponto em que tudo começou, lembrando que ele coescreveu a faixa com James Hetfield, Lars Ulrich e Cliff Burton. A imprensa internacional leu isso como gesto de encerramento e também como reabertura de uma narrativa antiga, porque é impossível dissociar essa escolha da história de 1983 e do fantasma Metallica que acompanhou Mustaine por décadas. O mais interessante é que ele não faz disso um tribunal: ele faz disso música, e ponto. Há resenhas destacando que a versão é mais rápida, mais “Megadethizada”, como se ele pegasse um capítulo do passado e o reescrevesse no próprio idioma, sem tentar soar “como era”, mas sim como é agora. E, nesse contexto, a faixa bônus vira quase um pós-créditos que muda a interpretação de tudo o que veio antes: “The Last Note” fecha o disco; “Ride the Lightning” fecha a história.

No fim das contas, “Megadeth” é um álbum que não tenta ser unanimidade e nem precisa. Ele soa como uma banda em forma, tocando com fome, e como um líder que ainda sabe dirigir, editar e decidir. E se esse for mesmo o último capítulo em estúdio, ele tem uma qualidade rara: não parece uma despedida de quem está indo embora, parece o registro final de quem ainda poderia continuar — e escolheu parar do próprio jeito.

TRACKLIST
1. Tipping Point
2. I Don’t Care
3. Hey, God?!
4. Let There Be Shred
5. Puppet Parade
6. Another Bad Day
7. Made To Kill
8. Obey The Call
9. I Am War
10. The Last Note
11. Ride The Lightning (Faixa bônus)

FORMAÇÃO
Dave Mustaine – Vocal/Guitarra
Teemu Mäntysaari – Guitarra
James LoMenzo – Baixo
Dirk Verbeuren – Bateria

Categoria/Category: Destaque · Notícias · Resenha de Discos
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