Texto por Thiago Rahal Mauro
Gravadora: Nuclear Blast Records/Shinigami Records
Compre no Brasil: https://www.lojashinigamirecords.com.br/p-9503282-Auri—III-Candles-e-Beginnings

O AURI nunca foi uma banda fácil de definir e é justamente isso que a torna tão diferente. Em III – Candles & Beginnings, lançado em agosto de 2025 pela Nuclear Blast, e no Brasil pela Shinigami Records, o trio formado por Tuomas Holopainen (Nightwish), Johanna Kurkela e Troy Donockley volta a mergulhar em seu próprio universo sonoro, aquele que eles chamam de rabbit hole music. É um tipo de som que não se apressa, não busca refrões fáceis e não tenta provar nada a ninguém.
Mas vale o aviso: se você veio até aqui por causa de Tuomas Holopainen e espera algo grandioso, com coros épicos e guitarras imponentes, talvez se decepcione. Candles & Beginnings é um álbum muito mais atmosférico, introspectivo e, em vários momentos, quase acústico. Ainda assim, é impossível não pensar que essa estética representa o DNA mais puro do compositor, talvez uma amostra de como o Nightwish soaria se Tuomas tivesse seguido apenas o lado folk e cinematográfico de sua inspiração original, antes de incorporar o peso do metal.
O trabalho começa com “The Invisible Gossamer Bridge”, uma faixa que imediatamente transporta o ouvinte para um mundo paralelo. É como atravessar uma ponte feita de luz, com a voz celestial de Johanna Kurkela guiando o caminho entre camadas delicadas de teclados e pipes. A canção é hipnótica, envolvente e de uma beleza quase espiritual. Em contraste, “The Apparition Speaks” mostra um AURI mais sombrio e denso. É uma das surpresas do álbum, onde o trio prova que pode flertar com a escuridão sem perder a magia.
Logo em seguida, “I Will Have Language” se revela como um dos momentos mais emocionantes do disco. A faixa nasce de murmúrios e vocalizações sem palavras, como um ritual de criação. Aos poucos, o violino se entrelaça aos teclados e a canção cresce com elegância, até que as letras surgem de forma quase simbólica — como se a própria linguagem estivesse sendo descoberta. É um exemplo perfeito de como o AURI domina a arte de construir emoção sem pressa.
Na sequência, “Oh, Lovely Oddities” e “Libraries of Love” trazem uma leve mudança de atmosfera. Ambas mantêm a delicadeza do projeto, mas com estruturas mais definidas e vocais em primeiro plano. São canções que soam íntimas e calorosas, como se fossem registradas à luz de velas, e onde Johanna brilha com sua interpretação suave e precisa. Essas faixas funcionam como o coração do álbum, equilibrando lirismo e simplicidade.
Então vem “Blakey Ridge”, e tudo muda. Alegre, folclórica e contagiante, a música é o respiro do disco. Dá vontade de levantar, dançar e brindar com amigos, algo raro dentro da proposta contemplativa do AURI. É uma canção que poderia facilmente fazer parte da trilha de um filme medieval, repleta de energia e vida, e certamente uma das mais marcantes da carreira do trio.
Depois dessa alegria quase inesperada, “Helios” traz de volta a sensação de viagem interior. Com pipes, violões e uma pegada que lembra o folk moderno de Robert Plant, a faixa tem textura e profundidade, mantendo o ouvinte em transe. Já “Museum of Childhood” é pura nostalgia: soa como uma lembrança de infância capturada em som. A melodia, quase cinematográfica, desperta um sentimento agridoce de tempo e memória, como se estivéssemos caminhando por um museu de lembranças, vendo nossa própria história em vitrines sonoras.
O encerramento chega com “A Boy Travelling With His Mother”, uma música de onze minutos que sintetiza toda a essência do álbum. É épica sem ser grandiosa, com camadas de teclado e melodias que parecem narrar uma história sem precisar de palavras. Johanna mais fala do que canta, conduzindo o ouvinte por uma viagem emocional profunda e poética.
No fim, Candles & Beginnings é um álbum que não se impõe, mas conquista. Um disco para ouvir sem pressa, com fones de ouvido e talvez uma xícara de chá, permitindo-se mergulhar em suas nuances. O AURI entrega uma obra de sensibilidade rara, que reflete o lado mais íntimo de Tuomas Holopainen e reafirma a parceria mágica entre Johanna e Troy. Não é um álbum feito para impressionar, é um álbum feito para sentir. E, nesse aspecto, ele cumpre seu papel com uma beleza desarmante.
Tracklist:
1. The Invisible Gossamer Bridge
2. The Apparition Speaks
3. I Will Have Language
4. Oh, Lovely Oddities
5. Libraries Of Love
6. Blakey Ridge
7. Helios
8. Museum Of Childhood
9. Shieldmaiden
10. A Boy Travelling With His Mother
Formação:
Johanna Kurkela | vocal, violino, viola, teclados
Tuomas Holopainen | teclados & backing vocals
Troy Donockley | guitarra, bouzouki, mandola, uilleann pipes, low whistles, aerophone, bodhran, teclados, vocal
Tags: Auri • nightwish • Nuclear Blast • Shinigami Records









