RESENHA: ANETTE OLZON – VIP STATION – SÃO PAULO – 27/09/2025

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Texto por Thiago Rahal Mauro

Fotos por Clovis Roman

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Crédito Foto: Clovis Roman

Na noite deste sábado, 27 de setembro de 2025, São Paulo viveu um momento especial com o show de Anette Olzon na Vip Station. A cantora sueca, que ganhou projeção mundial ao assumir os vocais do Nightwish em 2007, trouxe à capital paulista um espetáculo repleto de emoção, memórias e intensidade. Foi uma noite que não apenas revisitou clássicos, mas também mostrou como o tempo ressignifica a música e dá novo valor a álbuns que, em sua época de lançamento, não receberam o reconhecimento merecido.

Quando Anette substituiu Tarja Turunen, vocalista original do Nightwish, a recepção foi marcada por resistência. Tarja tinha uma presença quase mítica, e seu timbre operístico era uma marca registrada da banda. Assim, por mais que Anette fosse uma excelente cantora, com técnica e carisma, seu estilo diferente causou estranheza. É o fardo natural de qualquer substituição em grupos com forte identidade: a comparação quase nunca é justa, e isso acabou ofuscando, no início, o brilho da nova fase.

Com o passar dos anos, porém, os discos Dark Passion Play e Imaginaerum conquistaram o espaço que sempre mereceram. A produção grandiosa, as letras densas e a entrega vocal de Anette ganharam novos olhares, sendo hoje obras reconhecidas pela própria comunidade do metal sinfônico. A memória afetiva amadureceu, e muitos fãs que antes torciam o nariz agora celebram canções que se tornaram parte essencial da história da banda.

Eu estive presente no show de divulgação do álbum Dark Passion Play, realizado pelo Nightwish em São Paulo, e guardo na memória o impacto daquela noite. Mesmo com toda a pressão e a desconfiança que cercavam a entrada de Anette Olzon na banda, ela mostrou uma performance segura e cativante, conduzindo o repertório com firmeza e sensibilidade. Sua voz, distinta da de Tarja, não buscava imitar nem substituir, mas sim oferecer uma nova interpretação das músicas. Naquela ocasião, já ficou claro para mim que Anette era uma artista de peso, capaz de conquistar o público com sua entrega e carisma no palco. Nessa mesma turnê, em Belo Horizonte, aconteceu um problema com a saúde da vocalista e, em parte, vaias do público que não aceitava sua entrada na banda. O show começou, mas na terceira ou quarta faixa, a cantora passou mal e o show não terminou.

O show desta noite em São Paulo foi prova incontestável desse renascimento de Anette para o público brasileiro. Cada música apresentada reacendeu lembranças de uma época de transição, mas agora sem a sombra das comparações. A plateia reagiu com entusiasmo, cantando junto, vibrando e reconhecendo a importância de Anette nesse legado. Mais do que revisitar o passado, a apresentação reafirmou o valor da artista em sua própria trajetória.

Para esta turnê no Brasil, Anette contou com uma banda formada inteiramente por músicos brasileiros: Filipe Duarte (Overdose) assumiu o baixo e vocais de apoio, cantando as partes de Marko Hietala extremamente bem, Sanzio Rocha brilhou nas guitarras, Kiko Lopes na bateria e Vithor Moraes deu vida aos teclados com arranjos marcantes. Como curiosidade, Sanzio e Kiko também fazem parte de um tributo ao Nightwish, o que deu ainda mais identidade ao show ao lado da cantora sueca.

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Filipe Duarte (baixo e vocal) e Sanzio Rocha (guitarra) – Crédito Foto: Clovis Roman

Antes de Anette assumir o palco, a casa recebeu a abertura da banda Magistry, representante nacional que vem se destacando no cenário do metal sinfônico mais pesado. O grupo trouxe energia contagiante, unindo riffs bem construídos, passagens melódicas e a força dos vocais guturais de Leonardo Arentz (guitarrista e também vocalista), que criaram um contraste intenso com as linhas limpas de Lya Seffrin. A vocalista demonstrou talento, potência e boa presença de palco, embora fosse possível notar certo nervosismo natural diante da responsabilidade de se apresentar em São Paulo.

O sexteto formado ainda por João Borth (guitarra), Thiago Parpinelli (teclado), Leonardo Rivabem (baixo, ex-Semblant) e Johan Wodzynski (bateria) mostrou coesão e segurança, conquistando a plateia com um repertório que transitava entre atmosferas grandiosas e momentos mais introspectivos. Entre as músicas do set, os maiores destaques ficaram para “Swing to the Circles of Time”, “Alchemy of the Inner World” e “Divine”, executadas com peso e dramaticidade que chamaram a atenção do público.

Setlist – Magistry:
Swing to the Circles of Time
Alchemy of the Inner World
Black Abyss
Divine
Me, the Moon and Venus
Lost Paradise

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Banda Magistry – Crédito Foto: Clovis Roman

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Banda Magistry – Crédito Foto: Clovis Roman

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Banda Magistry – Crédito Foto: Clovis Roman

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Banda Magistry – Crédito Foto: Clovis Roman

Com o fim da abertura, o palco foi rapidamente rearranjado, as luzes ganharam novos tons e a expectativa cresceu bastante entre os fãs. Com uma curta introdução ecoada no PA, já nos primeiros acordes de “7 Days to the Wolves”, a plateia vibrou intensamente, transformando a música em uma excelente abertura de show. O peso das guitarras aliado à dramaticidade da interpretação de Anette fez da execução um ponto alto logo no início, com o público cantando junto cada refrão. O baixista e vocalista Felipe Duarte interpretou muito bem as partes que seriam de Marko Hietala, dando toque profissional ao show. Em seguida, “Storytime” trouxe um clima quase lúdico, como se a casa fosse transportada para dentro de uma narrativa fantástica. A música ganhou corpo no palco, com teclados bem ressaltados e uma interpretação calorosa de Anette, que interagia sorridente com os fãs nas primeiras fileiras.

Quando chegou a vez de “Ghost River”, o show mergulhou em atmosferas mais densas. A bateria pulsante e os riffs agressivos se destacaram, enquanto Anette explorava seus registros médios e agudos com firmeza, alternando intensidade e suavidade de forma envolvente. O fato é que Anette estava cantando muito bem, melhor inclusive que na época que veio ao Brasil com o Nightwish. Em certos momentos, parecia o CD de tão perfeito que estava. Logo depois, “Bye Bye Beautiful” trouxe um dos momentos mais marcantes da noite: um dos maiores sucessos da sua fase no Nightwish, a canção foi cantada em coro uníssono pela plateia. A emoção de Anette ao ouvir o público tão entregue ficou evidente, reforçando a sensação de que aqueles discos, outrora questionados, hoje são celebrados como clássicos. A lenda é que a letra dessa música, escrita por Tuomas Holopainen, seria uma indireta para Tarja Turunen. Teorica nunca comprovada, mas dita por aí pelos fãs em todos estes anos.

Em “Amaranth”, o público pôde sentir de perto a complexidade dessa canção. As linhas de teclado, delicadas e bem estruturadas, criaram uma atmosfera envolvente que realçou ainda mais a interpretação de Anette. Sua voz deslizou com suavidade nos versos, ganhando intensidade gradualmente até alcançar o refrão. Nesse ponto, a força do seu timbre trouxe o ápice da música, emocionando a plateia que respondeu em coro, reforçando a grandiosidade do momento.
Já “Rest Calm” mergulhou a casa em um ambiente sombrio e introspectivo, com nuances mais graves e uma condução vocal carregada de dramaticidade. O riff bem pesado interpretado por Sanzio Rocha e o vocal de Felipe ficaram perfeitamente encaixados. Incluindo aqui a parte mais calma do meio da música, onde a melodia vocal de Anette se sobressaiu mostrando toda sua potência.

Um dos pontos mais curiosos foi “Last of the Wilds”, em que Anette deixou momentaneamente o palco para que os músicos mostrassem sua força em uma execução instrumental precisa e cheia de energia. O público respondeu com palmas compassadas, acompanhando cada virada rítmica.

Quando Anette retornou para “Eva”, trouxe consigo uma carga emocional intensa, entregando uma interpretação doce e delicada, que emocionou muitos fãs visivelmente tocados pelo clima. Um momento quase acústico, sem ser acústico, de fato. Os músicos se sentaram em cadeiras e transformaram o momento em uma ode mais introspectiva. Os fãs, aproveitaram a situação para ligarem as luzes dos celulares e criaram um momento único. Na sequência, “Turn Loose the Mermaids” ofereceu um momento poético, com arranjos sutis que lembravam uma balada medieval, enquanto o público ouvia em silêncio quase reverencial. Essa parte do show foi muito bem escolhida para acalmar os ânimos.

Já “Sahara” devolveu a força, com suas percussões marcantes e clima exótico, carregado de energia. Foi uma música que incendiou novamente a pista, fazendo muitos erguerem os braços e se deixarem levar pelo ritmo quase hipnótico da faixa. Lya Seffrin, do Magistry, participou dessa música e cantou com Anette perfeitamente. O dueto foi muito bem recebido pelo público.

O auge absoluto da noite aconteceu com “The Poet and the Pendulum”, uma daquelas músicas que não apenas se ouvem, mas se sentem na pele. Foram mais de dez minutos em que o tempo pareceu suspenso, enquanto a banda tecia uma narrativa gigantesca em forma de som, cheia de reviravoltas, silêncios carregados e explosões que arrebatavam a alma. Anette brilhou de uma maneira que beirava o inacreditável. Sua voz oscilava entre a fragilidade delicada, quase sussurrada, e uma força avassaladora que enchia o espaço de energia. Era impossível não se arrepiar diante dessa entrega — parecia que cada palavra vinha carregada de verdade, como se ela própria fosse parte da história que a canção contava.

A banda, afinada e intensa, deu um show à parte. Mesmo os trechos mais intrincados surgiram com naturalidade, como se fossem parte de um organismo vivo que respirava junto com a plateia. O tecladista, em especial, foi simplesmente hipnótico: suas mãos criaram universos inteiros em questão de segundos, levando a música para territórios de beleza sombria e, ao mesmo tempo, celestial. Quando a última nota ecoou, ficou no ar um silêncio pesado, daqueles que só acontecem quando todos ainda estão tentando voltar para si. “The Poet and the Pendulum” não foi apenas um clímax musical — foi uma experiência que atravessou cada pessoa presente, deixando a sensação de que, por alguns instantes, todos partilharam da mesma emoção, intensa e inesquecível.

Antes da execução dessa música, o coro de “pastora, pastora”, entoado em uníssono pelo público, já se destacava de forma marcante em todo o show, tornando-se quase um personagem à parte. Anette comentou com bom humor sobre o fato curioso de que um simples meme criado pelos fãs nas redes sociais havia ganhado vida no palco, transformando-se em um momento real de interação e cumplicidade com a plateia. Em seguida, ela expressou sua gratidão pelo carinho recebido e explicou que “Meadows of Heaven” é uma canção especial, perfeita para aqueles que acreditam em Deus e na imensidão dos céus.

A interpretação dessa faixa trouxe um clima de contemplação profunda, quase mágico, em que as vozes do público se misturaram às do palco, formando um coro emocionante que deu a sensação de uma experiência coletiva de transcendência. As passagens com influência do gospel intensificaram o impacto da performance, conduzindo a música a um clímax arrebatador, ao mesmo tempo elevado e espiritual, deixando no ar a impressão de que todos ali compartilhavam de uma conexão única, que ultrapassava o simples ato de assistir a um concerto.

Antes do encerramento, um dos momentos mais marcantes da noite aconteceu quando Anette apresentou o filho Seth ao público. Ela contou, com sinceridade, que em sua primeira turnê com o Nightwish no Brasil, aos 35 anos, precisou deixá-lo na Suécia e carregou por muito tempo a culpa de ter ficado longe dele. Agora, aos 54, com uma trajetória consolidada e uma relação ainda mais forte com a música e com a família, pôde dividir esse instante especial no palco. O rapaz, bem-humorado e carinhoso, agradeceu à mãe pelo gesto e, com um sorriso leve, pediu que a plateia gritasse em coro o já famoso “pastora, pastora”, arrancando risadas, aplausos e reforçando a conexão calorosa entre banda e público.

Em seguida, chegou a hora da despedida com “Last Ride of the Day”, que encerrou a noite em puro clima de celebração. A bateria pulsante e os riffs acelerados incendiaram a plateia, que cantou e bateu palmas até os últimos segundos da performance. Foi um final vibrante, carregado de energia, com o público de pé, gritando o nome de Anette em agradecimento e reverência. Mais do que um show, foi um encontro inesquecível entre a história da banda, a entrega da vocalista e o amor incondicional dos fãs brasileiros.

Em resumo, o show na Vip Station foi mais do que uma viagem ao passado: foi a prova viva de que a obra de Anette Olzon com o Nightwish envelheceu com força e agora ocupa o lugar de destaque que merece. Cada música foi recebida como um clássico, e a entrega da cantora mostrou uma artista plena, consciente de sua história e orgulhosa do caminho que construiu. Esta noite ficará registrada como uma das mais emocionantes experiências musicais em São Paulo.

Setlist – Anette Olzon:

7 Days to the Wolves
Storytime
Ghost River
Bye Bye Beautiful
Amaranth
Rest Calm
Last of the Wilds
Eva
Turn Loose the Mermaids
Sahara
Drum Solo
The Poet and the Pendulum
Meadows of Heaven
Last Ride of the Day

 

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Crédito Foto: Clovis Roman

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