
Banda britânica revelou que, desde os anos 1990, parte dos lucros da canção é destinada às famílias das vítimas do líder de seita Charles Manson.
Nos primeiros anos da década de 1990, o Paradise Lost emergia como um dos nomes mais influentes da cena metal britânica. O grupo, formado em Halifax, no norte da Inglaterra, construiu sua reputação com uma sonoridade densa, melancólica e inovadora, que viria a moldar o metal gótico dos anos seguintes. Entre 1990 e 1993, a banda lançou quatro discos em rápida sucessão — entre eles Gothic (1991) e Icon (1993) —, dois álbuns que redefiniram os limites entre o doom e o metal melódico. No entanto, o ritmo intenso de turnês e gravações começou a cobrar seu preço. Quando entraram em estúdio em 1995 para gravar o quinto álbum, Draconian Times, os integrantes confessaram estar física e mentalmente esgotados. “Era um ciclo sem fim: gravar, sair em turnê, voltar e gravar de novo. Quase não tínhamos tempo de ir para casa”, relembrou o guitarrista Gregor Mackintosh em entrevista à Metal Hammer.
Apesar do cansaço, o resultado foi um dos maiores marcos da discografia do grupo. Draconian Times levou o Paradise Lost ao auge criativo e comercial, alcançando a 16ª posição nas paradas britânicas e consolidando o estilo que o tornaria referência no metal gótico.
Entre as faixas do álbum, “Forever Failure” ganhou destaque por sua atmosfera sombria e introspectiva. A canção carrega guitarras melódicas, vocais melancólicos de Nick Holmes e uma produção refinada que mistura peso e sensibilidade. O detalhe mais marcante, porém, está na inclusão de um sample de voz do notório Charles Manson, líder da seita responsável por uma série de assassinatos brutais nos anos 1960, incluindo o da atriz Sharon Tate.
Segundo Mackintosh, a ideia surgiu após os músicos assistirem ao documentário The Man Who Killed The Sixties, no qual Manson faz uma reflexão sombria sobre sua própria imagem e a sociedade da época. “Aquela fala parecia resumir o espírito da música”, contou o guitarrista. “Decidimos incluí-la, sem imaginar a dor de cabeça legal que isso nos causaria depois.”
Ao tentar obter autorização para o uso do áudio, a banda descobriu que os direitos sobre as gravações de Manson estavam vinculados a acordos judiciais que garantiam compensações às famílias das vítimas. Assim, para utilizar o trecho, o Paradise Lost precisou aceitar pagar royalties vitalícios sempre que a música fosse reproduzida comercialmente.
“Tivemos que pagar royalties às famílias das vítimas de Charles Manson por causa da música. E fazemos isso desde então”, revelou Mackintosh à Metal Hammer.
O guitarrista também explicou que a decisão gerou controvérsias internas e resistência de empresários e executivos da gravadora, preocupados com a repercussão ética e legal da escolha. “Nosso empresário não ficou nada feliz, mas Nick [Holmes] estava decidido. Ele achava que o trecho dava um peso emocional único à canção — e, de fato, deu.”
Apesar da polêmica e do resultado modesto nas paradas (a faixa chegou apenas à 66ª posição no Reino Unido), “Forever Failure” tornou-se uma das músicas mais simbólicas da carreira do Paradise Lost, tanto pela sonoridade quanto pela história que carrega. A faixa consolidou o tom introspectivo e existencial da banda, transformando-se em um hino entre fãs do metal gótico e doom.
O site brasileiro Mundo Metal destacou recentemente o caso, relembrando como “Forever Failure” continua sendo uma peça central na trajetória do grupo. A publicação ressalta que o episódio mostra como decisões artísticas podem gerar consequências duradouras, especialmente quando envolvem figuras controversas. Segundo o portal, “mesmo décadas depois, o Paradise Lost mantém o compromisso de repassar as compensações, transformando a canção em um símbolo involuntário de justiça e memória.”
Desde então, Draconian Times permanece como o ápice criativo da banda e uma referência incontornável no metal dos anos 1990. Em 2020, o álbum ganhou uma reedição comemorativa de 25 anos, reacendendo o interesse de fãs e críticos por sua produção impecável e por histórias como a de “Forever Failure”.
“Não mudaria nada nessa música”, concluiu Mackintosh. “Ela representa exatamente o que éramos naquele momento , sombrios, sinceros e determinados a fazer algo diferente.”









