Texto e entrevista por Thiago Rahal Mauro

Referência absoluta no rádio brasileiro quando o assunto é Rock e Heavy Metal, Vitão Bonesso segue firme e forte à frente do programa Backstage, que acaba de ser premiado pela APCA como o melhor programa musical do ano de 2024. Com 37 anos de história, a atração se consolidou como um verdadeiro termômetro da cena, acompanhando as transformações do mercado e das tendências musicais ao longo das décadas. Mas como manter a relevância em tempos de streaming e redes sociais?
Nesta entrevista ao Onde o Rock Acontece, Vitão reflete sobre o impacto do Backstage na formação de novas gerações de ouvintes, a evolução do rádio na era digital e o papel da crítica musical nos dias de hoje. Sempre atento às mudanças, ele compartilha sua visão sobre o futuro da mídia tradicional e como as plataformas online influenciam o consumo de música atualmente.
Com um olhar experiente, mas sem perder o entusiasmo, o radialista comenta sobre as bandas que podem se tornar as próximas lendas do gênero e relembra momentos marcantes da sua trajetória, incluindo entrevistas desafiadoras com grandes ícones do rock. Afinal, qual foi a conversa mais intimidadora que ele já teve? E qual momento ele reviveria se pudesse?
Entre risadas, nostalgia e muitas histórias, Vitão Bonesso mostra por que continua sendo uma voz essencial para quem respira Rock e Metal. Prepare-se para uma conversa repleta de experiências, reflexões e, claro, aquele amor inabalável pela música pesada.
Conheça mais sobre o trabalho de Vitão Bonesso: https://www.programabackstage.com/
CONFIRA A ENTREVISTA:
Onde o Rock Acontece: Você acabou de ganhar o prêmio de melhor programa de rádio musical pela APCA. Meus parabéns. Vitão, o Backstage é um programa icônico no cenário do Rock e Metal no Brasil. Como você enxerga o papel do programa em formar novas gerações de fãs desses estilos, especialmente na era digital?
Vitão Bonesso: Às vezes, me pego pensando nisso… Qual terá sido o papel do Backstage nos últimos dez anos? Acredito que, ao longo desses 36 anos, ajudei a fortalecer a cena da música pesada, acompanhando as novas tendências que foram surgindo, sempre junto a diferentes gerações de ouvintes. Diante do surgimento do CD e de estilos como Grunge, Funk Metal, Nu Metal, da chegada da Internet, das trocas de arquivos e até mesmo do retorno triunfante do vinil, prefiro pensar que, seja o que for que venha pela frente, a gente encara de peito aberto e segue em frente.
Onde o Rock Acontece: O que você acha das bandas de Rock e Metal da atualidade? Alguma delas tem o potencial de alcançar o status de lendas como Black Sabbath, Metallica ou Iron Maiden?
Vitão Bonesso: Essa é uma pergunta que me fazem com frequência. Como saber? Quem, no início dos anos 80, poderia imaginar que o Metallica chegaria ao patamar em que está hoje? Só o tempo pode nos dizer. Por outro lado, muitas grandes bandas estão surgindo — algumas com mais potencial, outras nem tanto —, mas que, de qualquer forma, ajudarão a garantir uma boa safra no futuro.
Onde o Rock Acontece: Com a popularização do rádio online e dos podcasts, você acredita que o formato tradicional de rádio ainda tem espaço como ferramenta de trabalho? Como você adaptou o Backstage para esse novo ambiente?
Vitão Bonesso: Sem dúvida, a Internet, especialmente com o surgimento das rádios online, passou a captar uma parte da audiência das rádios tradicionais. Lembro-me de que, no início, falava-se muito sobre o possível desaparecimento das emissoras convencionais. No entanto, logo se percebeu que há público para ambos os formatos. As próprias rádios tradicionais, que inicialmente se sentiam ameaçadas, começaram a transmitir sua programação pela Internet e, mais tarde, passaram a se aliar a canais no YouTube e outras plataformas. Mais uma vez, acompanhei essa tendência, chegando a criar minha própria rádio online, a Rádio Backstage, durante o período em que estive afastado da rádio aberta. E posso dizer, por experiência própria, que o formato tradicional continua soberano — tanto que acabei abandonando minha rádio online.
Onde o Rock Acontece: Na sua opinião, qual o papel de um crítico musical nos tempos atuais?
Vitão Bonesso: Olha… Já fui crítico. Por anos, escrevi resenhas de lançamentos tanto para a Rock Brigade quanto para a Roadie Crew. E, para ser um bom crítico, capaz de analisar o trabalho de uma banda ou artista, é preciso muito estudo, para que a análise não se torne algo meramente pessoal. Minha vida sempre girou em torno da música, independentemente do gênero. Sempre estudei estilos, músicos, entre outros aspectos. Ainda assim, nunca me senti completamente à vontade para fazer críticas, especialmente negativas, sobre uma obra. Eu sempre me colocava no lugar da banda ou do artista, que se deparava com um comentário escrito por alguém que nem conhecia. Como eu reagiria ao ler uma crítica negativa sobre algo que criei? Por isso, com o tempo, decidi parar de resenhar novos lançamentos. E, hoje em dia, será que alguém ainda escuta um álbum na íntegra? Não acredito. Lembro que, quando precisava resenhar um novo disco do Rush, por exemplo, era um verdadeiro desafio. Caramba, para chegar a uma conclusão sobre o trabalho de uma banda como o Rush, era necessário ouvir o álbum pelo menos umas vinte vezes. E eu fazia isso! Kkkkkk.

Vitão Bonesso e Vinny Appice
Onde o Rock Acontece: Tendo vivido intensamente o cenário do Rock e Metal em décadas passadas, como você compara a interação entre bandas e público antigamente e hoje? As redes sociais facilitaram ou diluíram essa relação?
Vitão Bonesso: Cada época tem sua própria forma de comunicação. Nos anos 70, 80 e boa parte dos 90, a troca de fitas demo pelo correio era o meio mais eficaz de interação entre as bandas. Elas enviavam seus materiais, que eram copiados e repassados adiante. Se pararmos para pensar, era um processo bastante rudimentar, mas era assim que as coisas funcionavam. Com a chegada da Internet, esse processo se tornou muito mais simples e eficiente. Sem dúvida, a tecnologia facilitou tudo de maneira impressionante.
Onde o Rock Acontece: Quais mudanças você percebe no perfil dos ouvintes de Rock e Metal? Eles ainda buscam conhecer álbuns inteiros, como no passado, ou a mentalidade de singles dominou de vez?
Vitão Bonesso: Eu não diria que os singles são exatamente uma nova tendência. Sei que muitas bandas, principalmente as iniciantes, adotam esse formato, digamos, mais econômico, como parte do chamado “trabalho de formiguinha”—lançando músicas aos poucos nas plataformas de streaming até acumularem material suficiente para um álbum completo. Acho essa estratégia interessante. Já o perfil dos ouvintes varia bastante. Há aqueles que ainda compram CDs e fazem questão de ouvir um álbum inteiro, explorando cada detalhe dos encartes—o que, no formato do CD, exige uma boa visão, kkkk. Por outro lado, o público que consome formatos físicos, como CD ou vinil, é bem diferente da nova geração. Hoje em dia, muitos perguntam: “Você ouviu o novo disco do Anthrax?”, mas, na realidade, escutaram apenas uma ou duas faixas e sequer conhecem a obra completa. E isso, sem dúvida, é uma pena.
Onde o Rock Acontece: Você já entrevistou muitas lendas da música. Qual foi a entrevista mais desafiadora ou surpreendente que você realizou, e por quê?
Vitão Bonesso: Sem dúvidas, a entrevista que me causou mais calafrios foi com Ritchie Blackmore. Fiquei petrificado quando o assessor dele chegou até mim, lá no Olympia, antes da primeira apresentação do Rainbow em São Paulo, em junho de 1996, e perguntou: “Você quer entrevistar o Ritchie?”. Meu Deus, custou para eu conseguir responder: “Sim, é claro!”. Todo mundo conhece a fama dele, mas, como grande fã e, principalmente, conhecedor de seu gênio, tomei as devidas precauções para evitar perguntas que, com certeza, o fariam torcer o nariz. Felizmente, tudo correu bem. Mas foi um grande desafio.
Onde o Rock Acontece: Apesar de tantas mudanças na forma como consumimos música, você acredita que a rádio ainda exerce um papel essencial no fomento do cenário de Rock e Metal?
Vitão Bonesso: Desde que certas estações, que trabalham com o segmento Rock, destinem um espaço dedicado ao Metal, eu acredito que sim.

Vitão Bonesso com Alex Lifeson e Geddy Lee do Rush
Onde o Rock Acontece: O que você leva em consideração na hora de selecionar as músicas para o Backstage? Como equilibrar os clássicos com o material mais recente?
Vitão Bonesso: O Backstage sempre teve como objetivo transitar por diversas épocas e fases do Heavy Rock. O Heavy Metal abrange vários estilos, e dividir esses estilos em duas horas de programa se tornou algo natural para mim ao longo dos 36 anos do Backstage. Sempre procurei manter um equilíbrio democrático nessa seleção, trazendo lançamentos, relembrando datas importantes e destacando grandes álbuns que completaram 30, 35, 40, 45, 50 anos de lançamento, além de outras curiosidades.
Onde o Rock Acontece: Com tantas mudanças no consumo de música e conteúdo, como você enxerga o futuro do Backstage? Há planos de expandir para outras plataformas ou formatos?
Vitão Bonesso: O futuro… Ah, o futuro. Lembro que, quando eu tinha uns 15 anos, vivia me preocupando com ele. Sempre me perguntava: “Como estarei aos 25 ou 30 anos?”. Aí você chega aos 35 e começa a matutar: “Como estarei aos 50, 55 anos?”. Este ano completo 64, e a única coisa que peço para o meu futuro é saúde. Com muito custo, aprendi que o futuro só Deus sabe. Se, há vinte anos, alguém tivesse me dito que meu programa chegaria a mais de 30 anos no ar, eu, com certeza, cairia na gargalhada. Pois é, aqui estamos nós, na 37ª temporada do Backstage. O que vier daqui para frente é lucro. Expandir o programa para outras plataformas? Quem sabe… Opa, nada de pensar no futuro! Kkkk.
Onde o Rock Acontece: Se você pudesse reviver um momento marcante do Backstage ou da sua trajetória no rádio, qual seria e por quê?
Vitão Bonesso: Hummm… São tantos momentos… Mas um que me marcou foi a estreia do programa, em novembro de 1988. Eu não queria ouvir a primeira edição e me refugiei na casa da minha mãe, que na época morava em Praia Grande, onde o sinal simplesmente não pegava. Mas não me contive e improvisei uma gambiarra com fios de cobre e alguns chumaços de Bombril. E lá estava eu, ouvindo a edição número 1 do Backstage, mesmo com muito chiado. É incrível pensar que, em um ano, chegaremos à edição de número 2000!

Vitão Bonesso









