Entrevista: Truls Mörck, baixista do Graveyard, relembra a última passagem da banda no Brasil: “Tivemos que esperar o público assistir Game of Thrones antes de tocar!”
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Texto e entrevista realizada por Thiago Rahal Mauro

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Seis anos após sua última visita ao Brasil, o Graveyard está de volta para incendiar os palcos com sua fusão cativante de rock clássico, blues e psicodelia. A banda sueca, reconhecida por sua intensidade sonora e composições marcantes, promete shows inesquecíveis para os fãs brasileiros. A formação do Graveyard conta com Joakim Nilsson (guitarra e vocal), Jonatan Ramm (guitarra), Truls Mörck (baixo) e Oskar Bergenheim (bateria). 

Para celebrar esse retorno, conversamos com Truls Mörck, baixista da banda, que compartilhou histórias inusitadas, refletiu sobre a evolução do som do grupo e revelou suas expectativas para a nova turnê.

Na entrevista, Truls relembra um episódio inusitado no Rio de Janeiro, quando a banda teve que adiar o horário do show para que o público pudesse assistir ao último episódio de Game of Thrones antes da apresentação. Além dessa curiosidade, ele comenta sobre a energia de dividir o palco com Danko Jones e como essa parceria promete noites memoráveis. A empolgação é palpável, e o Graveyard está pronto para entregar performances carregadas de emoção e intensidade.

Falamos também sobre o álbum “6”, que marca uma nova fase na banda, trazendo um tom mais introspectivo e sombrio em contraste com a energia vibrante de “Peace”. Truls compartilha como a pandemia impactou o processo criativo do grupo, transformando a forma como compõe e exploram suas sonoridades. Ele também comenta sobre o futuro do Graveyard, deixando pistas sobre novos projetos e a direção musical que a banda pretende seguir.

Com turnês intensas, histórias inusitadas e um som que continua a evoluir, o Graveyard reafirma sua posição como uma das bandas mais autênticas do rock contemporâneo. 

Leia a entrevista completa e descubra o que esperar dos próximos shows no Brasil!

Graveyard Dando Jones

Onde o Rock Acontece: A última vez que vocês tocaram no Brasil foi em 2018. O que você mais lembra dessa época? E quais as expectativas para esse retorno?

Truls Mörck: Bem, a última vez… Eu acho que foi em 2019, não é?

Onde o Rock Acontece: Na verdade, foi em 2019 sim, desculpe.

Truls Mörck: Sim, você vê. É um pouco confuso, mas… Nós fizemos uma turnê pela América Latina, muitos voos, todos os dias em cidades diferentes, ou países diferentes. Mas eu tenho uma boa memória. O último show que fizemos no Brasil foi no Rio de Janeiro. Foi o último show da turnê, e foi a mesma noite que o último episódio de Game of Thrones foi lançado. Então, a pessoa que estava trabalhando no local nos disse que precisava mudar o horário do show. Não podemos tocar aqui agora, às 20h, porque todo mundo vai querer ver Game of Thrones em vez disso. Então, o que? Ok. Então, nós dissemos ok, e foi ao ar livre. Era tipo um barco, eu acho, um barco de cerveja. Tinha um pátio externo com uma varanda ao ar livre. Então, colocaram uma tela e, em vez de tocarmos, eles projetaram o último episódio de Game of Thrones. Então, todo mundo que estava lá, todo o público, sentou e assistiu um episódio de Game of Thrones até o final daquele episódio. E então, nós tocamos o nosso set, que foi algo especial, mas foi legal.

Onde o Rock Acontece: Nesta nova turnê no Brasil, agora, vocês se apresentarão com o Danko Jones. Você é fã da banda? Como se sente por compartilhar o palco com eles?

Truls Mörck: Eu me sinto bem, acho que vai ser uma boa combinação. E é engraçado, eu tenho memórias, lembro dos vídeos musicais deles, eles estão há muito tempo na estrada. Eu realmente admiro o fato de estarem vivos há tanto tempo, e respeito isso. Acho que a música vai funcionar muito bem conosco. O público vai receber um pouco de cada coisa. E acredito que esse show vai ser muito legal.

Onde o Rock Acontece: A música do Graveyard tem influências de rock clássico, blues e psicodelia. Como você equilibra esses elementos enquanto mantém seu som único?

Truls Mörck: Você tem que confiar um pouco nos seus instintos, eu acho. Historicamente, a música psicodélica e o heavy blues sempre funcionaram bem juntos. Desde os anos 60, quando os músicos originais, como Hendrix, começaram a fazer isso. Então, não é que… Sim, sempre funciona bem junto por algum motivo. Existe uma longa história de pessoas fazendo isso, e você pode ouvir e se inspirar. E aí você adiciona seu próprio toque pessoal. Eu acho que, normalmente, fazemos algumas músicas que são mais rápidas e pesadas. Gostamos de que as músicas tenham uma intensidade bem alta. Aí, depois, damos uma desacelerada, ficamos mais melódicos por um tempo. E depois gostamos de dar uma ousada, sair um pouco da curva. E então voltamos para coisas energéticas, como fogo. É uma viagem. Cada show tem que ser um pouco dessa viagem. Eu acho que confiamos nos nossos instintos. E sabemos o suficiente um sobre o outro para ir com o fluxo. E normalmente, isso simplesmente funciona.

Onde o Rock Acontece: E o seu último álbum, “6”, tem uma atmosfera mais calma e sombria, em comparação com o álbum “Peace”. Como você abordou essa mudança de estilo durante o processo de gravação?

Truls Mörck: Bem, esses álbuns foram escritos em circunstâncias diferentes, com certeza. Peace… Depois que lançamos Peace, fizemos muito, muito, muitos shows. Estávamos viajando bastante. Foi bem difícil. Estávamos constantemente tocando, até o ponto em que comecei a me sentir um pouco, quase cansado, talvez. E então, tocamos até março de 2020. Depois, voltamos da turnê e, alguns dias depois, houve o lockdown, a pandemia. E tudo… Limpamos nossas agendas. De repente, houve um silêncio. Foi um contraste tão louco em relação à turnê. Estávamos em turnê com o Opeth nos Estados Unidos e, no caminho para casa, começamos a ouvir rumores sobre algo acontecendo. O aeroporto estava realmente assustador, vazio. Mas… então, voltamos para casa e não tocamos mais no verão. Tudo foi cancelado. E de repente, houve silêncio. No começo, foi até um pouco legal, mas então o futuro começou a parecer muito estranho. Não sabíamos o que ia acontecer. Então, acho que esse álbum surgiu desse contraste entre a turnê e o silêncio de estar em casa por tanto tempo, sem ver tantas pessoas.

Onde o Rock Acontece: Uma das perguntas é se a pandemia influenciou a criação do álbum. Porque o ponto de partida da banda é o álbum. Você acha que esses tempos em que você esteve mais em casa, ou não em uma turnê constante, afetaram o álbum?

Truls Mörck: Sim. Sim, eu tenho que dizer que sim. Onde estávamos, não fomos muito afetados pessoalmente. Estávamos principalmente no campo. Era um silêncio. E estar sozinho com seus pensamentos. Isso pode acontecer a qualquer momento, se você escolher sair. Mas acho que era só… Estando em uma turnê, você sempre… Recebe muitas impressões. E você vai. Não pensa muito. Vai automaticamente. Especialmente depois de dois anos de turnê. Você é como um robô. Em uma missão. Muita gente. Sim, a missão é só tocar, fazer os shows, viajar, ir lá, etc. E aí, de repente, fica quieto. E todos os seus pensamentos começam a… Emergir. Você começa a ouvir sua própria voz na cabeça. Sim. Então, acho que o álbum não é sobre a pandemia. É um álbum muito introspectivo, que se trata dessas emoções que podem surgir de uma mudança louca na vida.

Onde o Rock Acontece: Eu tenho uma curiosidade, porque aqui no Brasil temos três bandas famosas com nomes relacionados à morte, cemitérios e túmulos: Sepultura, Crypta e Sarcófago. O que você acha disso? Parece que as bandas de rock e metal frequentemente escolhem esse tipo de nome.

Truls Mörck: Eu acho que é como se você quisesse explorar os extremos de várias formas. É tipo… Pode ser inspirador tentar levar as coisas ao limite. E o limite entre a vida e a morte é outro extremo que você pode explorar, eu acho. De alguma forma. Eu realmente não sei. Fiquei pensando muito sobre isso. A questão é… Por que as bandas de rock usam essa imagem da morte em seus álbuns? E… É muito interessante. Eu realmente não sei ao certo, mas isso vai muito para trás. Tipo, as bandas de rock começaram a usar esse tipo de imagem da morte por volta de 1967, ou algo assim. E aí, tinha o jazz e a música folk. Muitas músicas folk também lidavam com o tema da morte. Tem várias canções sobre matadores e… E… 

Onde o Rock Acontece: Sim. Eu acho que o Black Sabbath influenciou isso de certa forma. Porque eles falavam sobre filmes de terror. Ou… Eu acho que… Porque o Black Sabbath é a fundação da música pesada. Todas as bandas tentam criar algo que remeta ao Black Sabbath. Eu acho que é isso.

Truls Mörck: Sim, claro. Eles têm um impacto enorme em tudo, na música pesada. Mas… Eu realmente não sei por que a morte é tão interessante. Nós, do Graveyard, não sei. Não sei. Havia um cemitério por perto, onde a gente costumava fazer as refeições. Sério. Nas primeiras vezes em que nos juntamos, tipo, há 20 anos atrás. Talvez por isso.

Onde o Rock Acontece: E eu também tenho uma curiosidade. A Escandinávia tem tantos músicos e bandas grandes. Você acha que é mais fácil para os músicos e as bandas começarem nesses países?

Truls Mörck: Sim, eu acho que temos muitas oportunidades aqui quando somos crianças. Não sei como é em outros países, mas nas escolas havia muitas chances de tocar guitarra e encontrar lugares para ensaiar. Você até pode conseguir apoio financeiro do governo para pagar o aluguel de um espaço para ensaio. Não sei como funciona em outros lugares, mas acho que isso ajudou. Mas, sei lá… Às vezes penso que talvez gostemos de ficar mais em casa aqui, porque o clima é muito frio. Aí, temos que encontrar algo para fazer dentro de casa. Não dá pra ficar na praia ou algo assim. Então, ficamos em casa e passamos o tempo de algum jeito. Talvez isso ajude. Tocar música é uma boa atividade interna. Claro, você pode fazer isso ao ar livre também, mas, para música elétrica, você vai querer estar dentro.

Onde o Rock Acontece: E quando você escuta todos os álbuns do Graveyard, como acha que a banda evoluiu? Você acredita que agora vocês têm o som definitivo?

Truls Mörck: Eu acho que o som já estava lá desde o primeiro álbum. Acredito que havia algo ali desde o início. Houve muitas mudanças, claro, mas a visão da banda já estava formada desde aquele momento. E, sabe, ficamos melhores em escrever músicas, mas o som já estava presente no primeiro álbum. Quando começamos, gravamos duas músicas: Evil Ways e Blue Soul. Esse foi o nosso primeiro demo. E essas duas músicas ainda capturam as duas partes que temos: a parte melódica, sombria e psicodélica, e a parte pesada e rápida. E ainda estamos fazendo isso, só que de uma forma mais refinada, mais aprimorada.

Onde o Rock Acontece: E suas performances ao vivo têm uma energia muito intensa. Como você se prepara para um show? Você pensa no setlist primeiro, ou foca mais na energia do show, ou como você disse antes, nas músicas poderosas? E você tenta balancear as duas partes do show?

Truls Mörck: Sim, o setlist é sempre um desafio. Mas, durante uma turnê, acabamos encontrando um bom setlist que funciona. Sempre começamos com força e depois damos uma desacelerada, para voltar com força no final. Tentamos ser dinâmicos, mas o importante é sempre começar com energia e fechar o show com muita intensidade.

Onde o Rock Acontece: E sobre a inspiração para escrever as letras, você se inspira muito em filmes? Como as letras surgem? Porque hoje em dia temos tanta informação no celular, tantas coisas para fazer. Você acha difícil escrever uma letra nos dias de hoje?

Truls Mörck: Eu gosto de escrever no estúdio. Tenho um estúdio onde posso ficar, e ele é um lugar de trabalho para mim. Gosto de criar música no computador e escrever as letras enquanto escuto. Não conseguiria escrever de forma criativa se não fosse com a música tocando ao fundo. Para mim, funciona melhor assim.

Onde o Rock Acontece: Então, você não tem aquela inspiração espontânea que vem do nada, como frases ou ideias que surgem de repente?

Truls Mörck: Nem toda música, mas às vezes algumas frases vêm assim, do nada. Eu posso estar assistindo TV ou fazendo algo e alguém diz uma frase que acaba virando o começo de uma ideia. Mas, geralmente, quando estou escrevendo, gosto de estar no estúdio, ouvir a música primeiro e depois colocar as palavras nela.

Onde o Rock Acontece: E após todos esses anos, o que ainda te entusiasma sobre fazer música e fazer turnês? O que te motiva agora?

Truls Mörck: Acho que é muito empolgante tentar continuar pensando no futuro, planejando para o que vem pela frente. Tudo depende de quando você tem uma ideia e até quando ela se concretiza, o processo sempre leva muito tempo. Se você quer fazer uma turnê, comece a pensar sobre isso um ano antes. Então, agora, estou muito interessado em preparar o futuro da banda, para que possamos continuar criando e fazendo música por muito tempo.

Onde o Rock Acontece: Se você pudesse escolher um músico de qualquer época para colaborar em uma música ou álbum, quem você escolheria e por quê?

Truls Mörck: Eu acho que o Brian Eno seria uma ótima escolha. Ou talvez o David Bowie, como produtor. Acho que seria interessante. Ou, se ele estivesse vivo, o Lou Reed. Acho que eles trariam muitas ideias legais para o estúdio, mesmo que não estivessem diretamente no álbum, mas atuando como produtores. Seria incrível.

Onde o Rock Acontece: Você pode falar algumas bandas do Brasil que gosta?

Truls Mörck: Uau, não conheço muitas bandas do Brasil. Eu sei que vamos ouvir algumas bandas de abertura na turnê, mas não sou muito familiarizado com a cena brasileira. Me dê algumas sugestões.

Onde o Rock Acontece: Sepultura, Crypta e Sarcofago.

Truls Mörck: Claro, Sepultura. Eu já vi eles em algum festival há alguns anos. Eu os vi na Alemanha, foi muito bom. Mas eu não sei se eles voltaram com o cantor antigo agora.

Onde o Rock Acontece: Não. Eles estão agora na turnê de despedida.

Truls Mörck: Sim. E o Max Cavalera?

Onde o Rock Acontece: Não, o Max não está de volta.

Truls Mörck: Ah, ok. Ele está com a Soulfly ou algo assim.

Onde o Rock Acontece: Sim, a Soulfly e o Cavalera Conspiracy.

Truls Mörck: Ah, sim. Legal. Eu gosto deles. Eu gosto dos discos antigos. Eu não escutei os lançamentos mais recentes.

Onde o Rock Acontece: É diferente. É outra banda.

Truls Mörck: Sim. Eu me lembro de quando eu era criança. Toda semana, na televisão, passava um programa que mostrava vídeos de música. E por um tempo, tocaram War for Territory [ele se refere a música Territoy]. Acho que é esse o nome. Eu tenho memórias muito fortes dessa época. Eu era bem novo na época, mas lembro do vídeo até hoje. Eles estavam na cidade, saindo da cidade… Eu lembro muito da música. Eu achava aquilo muito legal. E eles passavam isso na TV aqui.

Onde o Rock Acontece: E depois dessa turnê, vocês já vão gravar um novo álbum? Vocês já têm músicas prontas? Qual é o futuro?

Truls Mörck: Sim, estamos trabalhando nas músicas agora. Eu estou no estúdio hoje. Tento ir quase todos os dias, escrever música e gravar alguns esboços. Estou focado no novo álbum. Não sei quando ele vai sair, mas estou trabalhando bastante nisso. Eu me inspirei muito depois dessa última turnê que fizemos. Estou tentando manter esse ritmo de compor e trabalhar bastante na banda, porque é algo incrível que temos. Eu amo tocar com o Graveyard. Como eu disse, quero continuar crescendo e seguindo em frente.

Onde o Rock Acontece: Muito obrigado pelo seu tempo. Deixe uma mensagem para o público brasileiro que vai ao show aqui.

Truls Mörck: Quero agradecer a todos que estão ouvindo a nossa música. É incrível que conseguimos chegar até a América Latina, e estamos muito felizes que as pessoas estão vindo. Vamos fazer o nosso melhor para deixar todos felizes. Vai ser um show incrível. Isso é tudo. Estou feliz em te ver. Tenha um ótimo dia e nos vemos em São Paulo.

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