Entrevista realizada por Leko Soares, da banda Lothlöryen e perfil História e Peso

Após mais de uma década de turbulências, hiatos, rompimentos, redescobertas e uma tragédia que abalou toda a comunidade do Metal nacional, o Tierramystica reaparece não como quem volta ao ponto onde parou, mas como quem reaprende a existir. A banda encara o próprio passado sem filtro, admite erros e expõe o que significa tentar ser profissional num país onde o Metal vive entre a paixão e o amadorismo.
Nesta entrevista, eles falam sobre o colapso interno, a reconstrução de 2025, a tensão entre arte e sobrevivência, a corrida contra o algoritmo e o sonho de tornar o projeto realmente sustentável.
Se acomode, respire fundo e bora entrar nesse terreno onde Folk andino, Heavy Metal e autocrítica se encontram nesse papo que tivemos com o guitarrista Alexandre Tellini.
Onde o Rock Acontece: Depois de tanto tempo off, vocês voltaram falando que “reaprenderam a ser uma banda”. O que exatamente vocês desaprenderam lá atrás?
Alexandre Tellini: Perdemos nosso senso de unidade por discordâncias de gerenciamento e pela falta de foco em objetivos práticos e realizáveis. Já na parte musical tivemos que redescobrir como era gravar em home studios, como era compor de forma isolada (fora dos ensaios recorrentes – como fazíamos anteriormente) e como trabalhar em novas plataformas de distribuição digital. Essas coisas não eram tão relevantes assim lá atrás ou sequer existiam.
Onde o Rock Acontece: Se não tivesse acontecido o reencontro pós-perda do André Matos, você acha que a banda teria voltado?
Alexandre Tellini: Não. A banda só poderia voltar sob duas circunstâncias: A primeira seria algum fato que causasse sensibilização em todos, e fizesse com que todos olhassem para o passado que foi construído. A segunda seria por vontade do Ricardo Durán, e assim foi. Ele é o dono do nome e o dono de toda a concepção de música folclórica andina + heavy metal. Não seria genuíno qualquer retorno sem ele. Ele é uma peça fundamental. As duas coisas ocorreram, a perda do Andre nos sensibilizou muito, e o convite do Ricardo Durán para um reencontro, poucos dias do triste episódio com o Andre causaram grande comoção em todos nós.
Onde o Rock Acontece: O rompimento com o antigo empresário foi o começo do fim ou só o estopim de algo que já estava desmoronando?
Alexandre Tellini: Não foi só o rompimento com um empresário, foi também com um companheiro fundador da banda. Foi um pouco triste como tudo acabou. Olhando para trás acho que erramos em excesso, muito mais pela falta de entendimento de mercado. Entretanto a mesma imaturidade que nos conduziu a erros crassos também nos levou aos acertos mais brilhantes que tivemos. Acho que tudo é parte do processo. Algumas bandas passam por fases de sucessivos erros e sobrevivem às crises, tanto internas quanto externas, nós sucumbimos.
Onde o Rock Acontece: Vocês acham que, se tivessem tido autonomia e autogestão naquela época, a banda teria sobrevivido?
Alexandre Tellini: Não faço a menor ideia, enquanto éramos uma banda mais democrática, menos centralizada e sem distrações como a fatídica produtora – que deveria ser uma solução mas se transformou em um problema – teríamos ido certamente um pouco mais adiante. Aquele período de crise entre 2012/13 e 2017/18 foi difícil pra todo mundo, depois veio COVID… É difícil falar se estaríamos em outro patamar já ou não. Talvez apenas se postergasse alguns conflitos e talvez até mesmo o terceiro álbum jamais saísse se não tivéssemos feito o rompimento e a pausa.
Onde o Rock Acontece: Em uma recente entrevista, o Alexandre se referiu ao cenário atual como uma “carnificina musical”. Beleza… mas onde Tierramystica se encaixa nesse campo de guerra?
Alexandre Tellini: Em algum lugar entre o underground e o mainstream, uma espécie de zona desconfortável para os artistas que buscam profissionalização da própria música em um cenário extremamente concorrido. Ao mesmo tempo em que precisamos trabalhar 8 horas por dia (no mínimo) para pagar as contas, precisamos aprimorar nosso trabalho como artistas para nos aproximarmos do nível de monstros consagrados e de certa forma mostrar para as pessoas: Hey, vejam só, nós estamos aqui fazendo um trabalho tão ou mais legal do que esses outros caras.
Onde o Rock Acontece: A decisão de criar músicas mais curtas e objetivas veio de uma visão artística ou de puro pragmatismo para sobreviver ao algoritmo?
Alexandre Tellini: Acho que é uma combinação de ambas, o algoritmo não pode ser ignorado, mas também não pode ser o Santo Graal de nenhum trabalho artístico. Acho que acertamos a mão nesse novo formato, estamos adorando tocar as músicas novas e adorando como elas estão soando bem e sendo bem aceitas pelo público. Claro, nada impede de fazer algumas canções mais longas, se assim sentirmos que a música precisar ser, mas quando estou compondo algo e vejo que a coisa se estendeu um pouco eu sempre me pergunto: Tem algo desnecessário aqui? Estamos abrindo alguns shows, como fizemos com o Angra e Masterplan, as aberturas de shows são setlists curtos geralmente, algo em torno de 40 minutos. Tocar 7 ou 8 músicas é muito mais interessante do que fazer um repertório com 4 ou 5 músicas.

Onde o Rock Acontece: Ainda sobre essa “escravidão do streaming” que vivemos, vocês acham que músicas mais complexas e elaboradas como a de vocês tem sofrido dentro da nova lógica do “prender o ouvinte em 5 segundos ou flopar”? Onde vocês traçam o limite entre adaptar-se e perder identidade?
Alexandre Tellini: O streaming tem seu lado ruim, mas eu sempre gosto de olhar o lado bom das coisas, hoje as pessoas escutam o material porque nós subimos ele para as redes, e de alguma forma monetizamos com isso. Antigamente quem não tinha o CD física ia pro YouTube ouvir algo ripado e depois baixava pirata de algum programa. Nós nunca solicitamos remoção de nada de canal nenhum, lembro que nosso primeiro álbum foi pirateado pra caramba na Rússia, não ganhamos nada com isso. Os streamings pagam pouco, mas é melhor do que era antigamente, tanto para nós (que agora temos um feedback mais genuíno – quem está ouvindo, de onde, ouviu o que) quanto para o público, que hoje pode ouvir sem baixar nada de sites desconhecidos, tem certeza que está monetizando o artista (e assim incentivando a criação de mais material) e pode criar suas próprias playlists, e claro, se ainda quiser pode comprar o material físico e guardar como um souvenir. Nossa identidade está lá, seja em uma música acústica de 3 minutos ou em um som épico de 6 minutos. Quanto a prender o ouvinte é uma questão de se colocar no lugar de quem está escutando, porque o cara vai ouvir o álbum da tua banda e não o novo do Helloween? O artista novo possui uma urgência muito maior em segurar o ouvinte. Vou te dar um exemplo: Sweet Child O’ Mine talvez nunca tivesse o refrão tão escutando se a introdução dela fosse desinteressante. O ABBA começava as músicas pelos refrões muitas vezes… É uma questão de visão mesmo.
Onde o Rock Acontece: Vocês mesmos disseram: agora são homens de 40 anos. Onde esse amadurecimento afetou mais: na arte ou nas prioridades do dia-a-dia?
Alexandre Tellini: Em ambas, mas o dia-a-dia é mais urgente, a arte é um território lúdico onde tudo é possível em termos de ideias. Consequentemente nosso dia-a-dia estar mais organizado e encaminhado resultou num trabalho que reflete isso também.
Onde o Rock Acontece: O que Tierramystica de 2025 faz que Tierramystica de 2010 jamais faria e vice-versa?
Alexandre Tellini: É mais fácil eu te falar as coisas que o Tierramystica fez em 2010, que o de 2025 não faria, com certeza. Uma delas seria ter apressado tanto o primeiro álbum, dava pra ter trabalhado muito mais tudo ali, e digo mais, o segundo também. Não fazer pré-produção é o maior erro que uma banda pode cometer. Aquela banda lá de 2010 adoraria ter tido o A New Horizon licenciado em 4 países diferentes.
Onde o Rock Acontece: A música “Eldritch War” trabalha com o conceito de livre-arbítrio, maniqueísmo, influências pré-colombianas e catolicismo europeu. Como vocês evitam cair no estereótipo do “folk folclórico demais”?
Alexandre Tellini: Acreditamos que deve haver uma conexão entre as pessoas e as músicas, seja na letra ou nas sensações transmitidas. É essa conexão de conversa entre artista e consumidor da arte que faz a mágica acontecer, como pergunta e resposta. Se a coisa fica folclórica demais, num plano meio alheio às realidades das pessoas, a coisa em si perde a razão de ser. Todas nossas músicas evocam folclore mas flertam com a realidade. Outro ponto, a construção rítmica do folk latino americano é diferente do europeu, isso de certa forma nos diferencia e afasta dos estereótipos já batidos, pouca gente ou quase ninguém explora os ritmos andinos.
Onde o Rock Acontece: Do processo de composição ao resultado final é comum algumas composições passarem por mudanças drásticas. Alguma música do Trinity nasceu como algo completamente diferente do que o resultado final entregue no álbum?
Alexandre Tellini: A Eldritch War foi a que mais mudou. Mudou a letra, a melodia de voz e uma parte dela que aparecia 2 vezes virou uma ponte, aparecendo uma vez só. Criamos um riff novo (aquele mais pesado) que surge por 3 vezes na música. A sessão andina, o tom e a bateria se manteve igual. A harmonia do tema de introdução e da modulação mudou também para conversar com a nova melodia. Foi bastante coisa, mas no fim das contas foi uma grande reforma que não botou a casa toda abaixo.

Onde o Rock Acontece: Falando dos convidados, o que vocês poderiam falar sobre o acréscimo que cada participação trouxe que realmente acrescentaram algo diferente para o álbum?
Alexandre Tellini: Como ainda estávamos reformulando a banda, encaramos que apresentar uma formação (ou seja – nomes de pessoas) era algo menos relevante para o público do que apresentar um trabalho da marca Tierramystica. Sendo assim decidimos gravar o álbum sem um baterista e um baixista efetivamente dentro da banda. O Thiago Caurio é um velho amigo e conhecido do Guy Antonioli (da época do Anaxes) e fez um brilhante trabalho, que foi acompanhado coordenado pelo nosso tecladista Luciano Thumé, desde a contratação dele, passando pelas pré-produções das performances até chegar na gravação. Já o Marcello Caminha Filho (contrabaixista) foi meu colega durante o bacharelado em música na UFRGS. Tocamos juntos por um tempo num tributo ao Iron Maiden (que o Guy mantém até hoje) e convidar ele para gravar foi algo bastante natural. Achávamos que ele não poderia contribuir muito além da gravação – pelo fato de ser um cara extremamente disputado no mercado da música nativista, mas ele acabou fazendo até a sessão de fotos do álbum e a abertura do Angra conosco. Foi um colaborador essencial, e está na família Tierramystica com certeza. O Giovani Facchini foi recomendado pelo antigo flautista Ademar Farinha, que por razões pessoais (talvez um envolvimento mais profundo com o antigo gerenciamento) não se sentiu à vontade para gravar. O Giovani fez um trabalho espetacular e está conosco. Quem sabe fará uma participação especial no Headbangers Night, em São Paulo dia 07 de dezembro no La Iglesia. Outros caras ajudaram bastante nas pré-produções como o TH Costa (contrabaixo) e o Gustavo Probst (bateria).
Onde o Rock Acontece: Com “Trinity”, vocês sentem que o álbum simboliza mais um fechamento de ciclo, a abertura de uma nova fase ou a correção de algo que havia se quebrado lá atrás?
Alexandre Tellini: Uma nova fase com certeza. Não temos a menor intenção de remontar nada do passado ou corrigir. É tudo daqui pra frente. O Trinity é a primeira fase de um planejamento de 2 álbuns e de reafirmação da banda no cenário nacional e de busca por relevância internacional.
Onde o Rock Acontece: Qual é a ambição real da banda agora? Falo de ambição mesmo, sem pudor artístico.
Alexandre Tellini: Transformar o Tierramystica em uma banda autossuficiente. Ontem mesmo estávamos em reunião (eu o Guy Antonioli e o Ricardo Durán). Saber onde se quer chegar é o primeiro passo para o sucesso. Os objetivos com o Trinity são mais modestos. Conseguimos até mais do que achávamos que teríamos. Não posso revelar o que é (esse alvo de independência), mas é bastante possível. Ainda tem caldo pra tirar desse álbum, temos vários shows para fazer, vídeo clipe para sair ainda esse ano (Novembro/Dezembro) e os lançamentos internacionais todos nessa época também. A partir do meio de 2026 já vamos começar a trabalhar o próximo álbum, e com certeza fazer algo mais ousado e não buscando sair das sombras do passado, mas contemplando todas as possibilidades do futuro.
Onde o Rock Acontece: Vocês chegaram a falar de lançamentos no Japão, México, Europa… qual é o plano de ataque?
Alexandre Tellini: O álbum vai ser melhor distribuído. Com certeza, vai fluir muito mais. Teremos mais reviews, mais ouvintes, mais contatos com promotores de fora, mais convites para tocar em palcos internacionais (já rolou possibilidades de tocar no México e no Japão – mas ainda inviáveis para nós). Isso pra banda já nos coloca num patamar onde jamais estivemos. Sabemos que o Brasil é um país grande, com uma moeda fraca e altamente caro de se deslocar dentro dele. É praticamente inviável buscar qualquer viabilidade econômica sem dinheiro público. Por isso vamos focar na carreira internacional, e os selos são um caminho.
Onde o Rock Acontece: Vocês acabaram de abrir dois shows pesados ao lado do Masterplan, em Curitiba e Porto Alegre, e já anunciaram para 2026 uma turnê nacional ao lado do All Metal Stars, o projeto Tributo ao Andre Matos, justamente o artista que influenciou na história e até mesmo no próprio retorno da banda. Depois desse recomeço cheio de simbolismo, o que o público vai ver da Tierramystica que nunca viu antes?
Alexandre Tellini:As aberturas que fizemos foram muito legais. É desafiador tocar antes de grandes bandas. Não pode haver um gap entre as performances, e ao meu ver mantivemos o nível alto. Até mesmo nossa produção de palco está de alto nível, além de tecnicamente estarmos tocando muito melhor hoje em dia do que lá atrás. Tudo soa melhor aos meus ouvidos. Quem puder nos assistir ao vivo vai ver uma banda em excelente performance, tocando canções realmente empolgantes em um palco bonito. Serão noites muito legais!

![Lothlöryen lança o álbum “…of Bards and Madmen [Reimagined] e videoclipe de Bards’ Alliance Lothlöryen](https://ondeorockacontece.com.br/site/wp-content/uploads/2025/09/Lothloryen_-180x140.jpg)







