Entrevista realizada por Leko Soares, da banda Lothlöryen e perfil História e Peso

Fabio Caldeira, vocalista do Maestrick – Crédito: Nick Licata @nick_stl_photo
Dez anos após o surgimento de um conceito que nasceu numa conversa doméstica e cresceu até virar uma saga progressiva em duas partes, o Maestrick finalmente fecha o ciclo do Espresso Della Vita. Solare era luz e descoberta; Lunare é sombra e introspecção, resultado não só de estética, mas de tudo que a banda viveu: perdas, viagens intensas, desgaste criativo e eventos inesperados que acabaram ditando o tom da obra.
Nesta entrevista, Fábio Caldeira revela as bases dessa jornada: a metáfora do trem inspirada na família, o cuidado quase cirúrgico com cada música, as experiências-limite que viraram arte, a parceria intensa com Adair Daufembach e a veia teatral que só cresce.
Entre faixas nascidas de lágrimas, apostas arriscadas e a passagem pelo ProgPower USA, o Maestrick fala de maturidade, futuro e do velho impasse do Metal brasileiro: talento de sobra, estrutura de menos.
Ajuste o assento, respire fundo e embarque. Esta conversa não é só sobre Lunare: é também sobre o preço e o privilégio de manter a arte viva em um país onde isso nunca foi simples.
Leia a entrevista:
Onde o Rock Acontece: Em Solare, vocês falaram sobre nascimento e movimento. Em Lunare, tudo fica mais denso e introspectivo. Essa transição foi consciente ou a vida e os acontecimentos durante o intervalo entre um álbum e outro empurrou vocês pra essa segunda metade mais sombria?
Fábio: Foi consciente. Desde o início do projeto “Espresso Della Vita”, em 2012, sabíamos que o Lunare seria mais sombrio. Por outro lado, é impossível dissociar a arte produzida das vivências e experiências. Então, sabíamos o direcionamento, já tínhamos várias ideias, mas muitos temas estavam abertos e precisavam desse tempo vivido para serem finalizados.
Onde o Rock Acontece: Em recente entrevista ao site “O Jardim Sonoro” vocês explicaram que a ideia do trem nasceu numa conversa com a mãe do Fabio. Mas quando foi que vocês perceberam que essa metáfora tinha tamanho pra sustentar não só um conceito, mas duas obras inteiras?
Fábio: Imediatamente. É um tipo de insight, de intuição que não dá para explicar, mas você sente fortemente que precisa seguir. Além do que o assunto era muito familiar para mim. Meus dois avôs, o paterno e o materno trabalharam na FEPASA, fazendo ronda de madrugada para conferir os dormentes dos trilhos, tive um tio avô que foi maquinista também. Cresci ouvindo histórias deles, de assombrações, de perigos, de ataques de animais. Esse folclore já estava estabelecido na minha mente e aí tudo fez sentido. Só não tínhamos o tempo de duração da viagem, mas a ideia do dia e da noite foi muito natural também. Mas dividir em duas obras foi por questões de logística.
Onde o Rock Acontece: Vocês disseram lá atrás que Lunare não sairia enquanto não estivesse “do tamanho certo”. No fim das contas, Lunare existe por causa do hiato ou apesar dele?
Fábio: O tempo é vital para que se tenha certeza de que a ideia e a execução, a paisagem e o som estão alinhados. Não só o Lunare, mas todos os nossos discos existem da forma que são, por causa da distância temporal entre cada um.

Fabio Caldeira, vocalista do Maestrick – Crédito: Nick Licata @nick_stl_photo
Onde o Rock Acontece: Vocês transformaram um trem numa epopeia dupla que levou mais de uma década pra se completar. Em algum momento vocês chegaram a se sentir presos ao próprio conceito que criaram?
Fábio: Sim. Apenas na questão de termos que fazer doze músicas para o Lunare. Nós nunca fazemos música para encher disco, e muito menos trecho para encher música. Tudo precisa ter um sentido verdadeiro para nós. Demanda muita pesquisa, testes e tempos de pausa para maturar as ideias. Em um certo momento, eu estava mentalmente muito cansado, mas tínhamos ainda uma música para terminar. Se fosse em outra situação, eu teria sugerido que o disco saísse com onze faixas. Mas o conceito exigia mais uma para completar as horas da noite. Ainda bem, porque eu não teria ficado tão satisfeito com o disco sem essa faixa.
Onde o Rock Acontece: Na era do fetiche pelo imediato que vivemos, mergulhar em um álbum conceitual é quase um ato de rebeldia. Vocês realmente sentem que estão nadando contra a maré ou isso é só o Maestrick sendo Maestrick? Vocês chegaram a cogitar lançar singles mais diretos só pra “acalmar o algoritmo”, como muita banda tem feito?
Fábio: É só o Maestrick sendo o Maestrick. Mas se fizer sentido, não tem porque não lançarmos singles mais diretos como a Ethereal, por exemplo. Talvez seja até saudável fazer algo mais minimalista agora, não sei. De fato, estaremos abertos ao que precisar acontecer, seja lá o que isso signifique.
Onde o Rock Acontece: Em um disco tão diverso, apesar da liberdade de criação, vocês acabam assumindo certos riscos ao explorar estilos tão diversos. Alguma das decisões musicais do disco chegou a ser tão arriscada a ponto de terem que pensar mais vezes se seria mantida ou não no álbum?
Fábio: Desde o “Unpuzzle!”, apenas seguimos o que parece ser o melhor caminho dentro do que já faz parte do nosso vocabulário musical. Mas mesmo assim, me lembro de um dos membros ficar receoso quando apresentei as ideias da Pescador e da Yellown of the Ebrium. Eu disse “Se der errado a responsabilidade é minha”. Mas como felizmente deu certo, foi mérito de todos. (rs)
Onde o Rock Acontece: A participação do Roy Khan contribuiu para a mudança de Lunare e acrescentou muito no tom sombrio que a banda buscava. Mas tecnicamente, o que mudou? Arranjo, interpretação, roteiro, tudo?
Fábio: O disco já estava pronto quando o Milton (Mendonça), nosso manager sugeriu que trouxéssemos participações. O Roy foi a primeira pessoa que pensamos, porque a Lunar Vortex foi vocalmente muito inspirada no trabalho dele no Conception e no Kamelot. Tecnicamente, só decidimos as partes e ele gravou. O deixamos livre para acrescentar o que quisesse, e no final ficamos extremamente felizes. Com todas as participações na verdade. E ainda deu certo dele participar do clipe, o que foi algo inédito na carreira dele e na nossa.

Onde o Rock Acontece: A estética teatral é intrínseca ao que constitui o Maestrick hoje como banda e considero um diferencial importante na cena nacional atual. Nesse sentido, vocês se veem mais como uma banda ou como uma cia artística que usa o Metal como ferramenta para expressar suas narrativas? Até onde vocês pretendem levar essa teatralidade no palco?
Fábio: Somos artistas com formação musical e que tentam expressar a sua arte de forma ampla. A linha mestra do nosso trabalho sempre foi e será a música, mas por que não dialogar com outras formas de arte se isso faz parte de quem somos? Quanto mais rica e multissensorial a experiência for, mais memorável será. Em 2026 exploraremos isso ao extremo e usaremos a teatralidade nos palcos de uma forma inédita na nossa carreira.
Onde o Rock Acontece: Solare era sobre início. Lunare é sobre ocaso. Alguma música do disco nasceu de um momento feio, real, difícil? Algo que vocês não teriam coragem de escrever anos atrás? Esse álbum mexeu com a forma como vocês se veem envelhecendo?
Fábio: Sim. A música Dance of Hadassah, nasceu no momento em que entramos no memorial de Auschwitz-Birkenau na Polônia durante nossa primeira turnê europeia em 2018. Eu me lembro de chorar copiosamente durante o passeio e entrei na van anotando o que tinha sentido. Aquilo me marcou tanto que expressar em forma de música foi uma necessidade física. Mas desde o Solare, nas músicas Across the River, que também foi escrita em um momento muito difícil e Trasintition, que é sobre uma amiga do Heitor que ficou tetraplégica. Para mim, escrever a Last Station foi uma experiência inesquecível. Ter que me imaginar “descendo do trem” me fez chorar muito, e eu senti como se tivesse olhado para o ponto mais escuro da noite e tivesse sido olhado de volta. Isso me mudou para sempre.
Onde o Rock Acontece: Vocês já declararam diversas vezes que o produtor Adair elevou o nível da banda. Mas o que isso quer dizer na prática? Houve alguma ideia dele que virou peça central do Lunare sem vocês preverem?
Fábio: O Adair primeiramente é um ser humano incrível. Ele deixa o ambiente sempre lá em cima. Tecnicamente, nos ensinou diferentes formas de tirar o melhor som dos nossos instrumentos, incluindo a minha voz. Desde as regulagens, a forma de captar, de tocar, posicionamento de microfone e por aí vai. Nosso relacionamento se aprofundou com o tempo, hoje somos muito amigos o que acho essencial, e ele nos conhece artisticamente como ninguém. No Lunare, a participação dele foi decisiva. Por exemplo, durante as prés, ele sugeriu que olhássemos para o futuro e fizéssemos um disco do Maestrick que tivesse uma abordagem mais atual e moderna. Decidimos que não haveriam meios-termos. O que fosse Prog seria Prog, o que fosse mais direto seguiria assim, o que fosse teatral também e focamos em dar a cada música o direcionamento mais claro possível. Foram mais de 100 horas de pós-produção, com reuniões analisando todos os arranjos e partes e decidindo o que realmente precisaria ficar. E o nome “BOO!” de um dos singles, foi ideia dele.
Onde o Rock Acontece: Como o Adair teve um papel bem central no álbum, teve alguma ideia de vocês que ele barrou dizendo que não funcionaria e que, mesmo relutando, vocês acabaram cedendo e depois viram que ele estava certo?
Fábio: Tivemos algumas partes que eram excessivas e decidimos em consenso. A Ghost Casino, por exemplo, tinha um refrão diferente e eu não tinha certeza que era o melhor para a música. O Adair ouviu e imediatamente sugeriu a mudança. A Ethereal também foi muito enxugada. Mas nós aprendemos com o Gustavo Carmo, que produziu o “Unpuzzle!”, a não termos apego. Por outro lado, quando estamos muito certos do que precisa ser, a gente argumenta e sempre decide pelo melhor para a música.
Onde o Rock Acontece: Vocês já deixaram claro que o público de fora entende algumas camadas da estética de vocês de um jeito diferente. O que exatamente eles sacam primeiro que o Brasil demora a perceber?
Fábio: Eu precisaria lembrar o contexto dessa citação para explicar, mas diferente não quer dizer melhor nem que entendem mais rápido. O que vale pra gente, é que a recepção está sendo a melhor possível.
Onde o Rock Acontece: Passados alguns meses do lançamento do álbum, vocês já conseguem fazer um balanço da repercussão que o álbum teve mundo afora? Foi o que vocês esperavam ou ainda existe mais frutos pra colher logo adiante?
Fábio: A gente sempre evita criar muita expectativa, mesmo sendo muito difícil. Mas mesmo tendo sido até aqui uma repercussão incrível ainda temos muitos frutos para colher nesse ciclo.
Onde o Rock Acontece: Vocês viveram momentos intensos esse ano, com a apresentação no Bangers Open Air, o show como banda de apoio do Roy Khan e a participação no renomado ProgPower USA. Depois de tudo isso…o que os fãs podem esperar do Maestrick em termos de shows e novas produções em 2026?
Fábio: Nosso próximo e último show do ano será no Amplifica Fest em São Paulo, no dia 06/12 no Carioca Club ao lado de bandas como o Bittencourt Project, o Project 46, o Pavilhão 9 e muitas outras. Estamos trabalhando duro para levar a experiência do nosso show a outro nível. Queremos muito tocar e chegar ao maior número de pessoas possível. Focaremos no Brasil em 2026 e esperamos dividir o palco com várias bandas da nossa cena.
Onde o Rock Acontece: E pra finalizar, de músico pra músico, sem enrolação: por que vocês acham que, mesmo tendo bandas nacionais tão boas quanto qualquer europeia como é o caso do Maestrick, nossa cena continua patinando no amadorismo e poucas conseguem se tornar autossustentáveis? Falta estrutura? Falta público? Ou é aquela velha treta de cada banda só olhar pro próprio umbigo e não pensar no crescimento da cena como um todo? Quero saber a real: o que trava o crescimento do metal brasileiro?
Fábio: Eu só posso dar a minha opinião, e acho que fora do Brasil, talvez por conta de uma realidade onde é possível adotar uma educação financeira desde a infância, bandas mais novas já começam considerando o lado dos negócios. Acredito que isso reflete também no lado dos produtores de eventos, que normalmente são fãs apaixonados ao invés de profissionais capacitados. O famoso MOA foi um exemplo disso, inclusive a última edição, que participei como músico da banda do Edu Falaschi. Nos meus 30 anos de carreira, já vi vários produtores cancelarem shows com o público na casa porque contaram com a bilheteria para pagar os cachês das bandas ou a estrutura de som e luz e não conseguiram. Presenciei os funcionários começarem a desmontar as estruturas com as bandas esperando para subir ao palco. Mais de uma vez. Agora sobre bandas que olham para o próprio umbigo, e me reservo apenas a falar pelo Maestrick, se tem uma coisa que fizemos nesses anos todos foi parceria com outras bandas. Não existe cena de uma banda, nem de duas ou três. Acho que quando houver um profissionalismo maior na questão estrutural, e para isso tem que haver estrutura para quem a fornece, as bandas terão um cenário favorável para acompanhar esse movimento com mais naturalidade. Porque não adianta você preparar um show e não haver casas com estrutura para ele. Se você tem estrutura para apresentar da melhor forma possível a sua arte, tenho convicção de que o público vai ter acesso a uma experiência diferente, vai criar memórias, vai falar delas, e com o tempo a conexão entre a música que você faz e eles será maior.




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