ENTREVISTA: “Fizemos isso por diversão e paixão”, diz UDO Dirkschneider sobre “Dirkschneider & The Old Gang”

17/10/2025 // Home  »  DestaqueEntrevistasNotícias   »   ENTREVISTA: “Fizemos isso por diversão e paixão”, diz UDO Dirkschneider sobre “Dirkschneider & The Old Gang”

Entrevista por Thiago Rahal Mauro

Udo Datog 1630 Photocredit Eddi Bachmann Photography

Crédito Foto: Eddi Bachmann

Vocalista lidera um supergrupo que une veteranos e jovens talentos do metal, celebrando a tradição alemã com energia e inovação.

O universo do heavy metal alemão ganha nova força com Dirkschneider & The Old Gang, projeto liderado por Udo Dirkschneider, voz icônica do Accept. Com uma formação de peso, o grupo mistura experiência e juventude para criar um som que respeita a tradição, mas explora novas possibilidades. O resultado é um álbum envolvente, cheio de energia e nuances que surpreendem mesmo os fãs mais antigos.

A formação reúne músicos que marcaram época e talentos que vêm despontando no metal. Peter Baltes assume o baixo, vocais principais e de apoio, enquanto Manuela “Ella” Bibert contribui com vocais principais, backing vocals e instrumentos de teclado. Stefan Kaufmann e Mathias “Don” Dieth comandam as guitarras, também participando dos vocais de apoio, e Sven Dirkschneider garante a bateria e o reforço vocal. Juntos, formam um time coeso e potente.

Dirkschneider & The Old Gang começou em 2020 como um projeto beneficente e rapidamente mostrou ter potencial para se tornar mais que um registro de caridade. Entre ensaios e gravações, a química entre os integrantes se transformou em músicas que equilibram nostalgia e inovação. Cada faixa reflete a paixão pelo metal, sem pressões de gravadoras, mostrando o lado mais autêntico e divertido do grupo.

O álbum apresenta faixas que exploram diferentes facetas do metal tradicional e contemporâneo. Canções como “Babylon” e “Time to Listen” evidenciam a força narrativa do grupo, enquanto a diversidade vocal entre Udo, Peter e Manuela cria dinâmicas únicas e marcantes. Dirkschneider & The Old Gang reafirma que, mesmo após décadas de história, ainda é possível emocionar e inovar, mantendo viva a chama do metal alemão para fãs de todas as gerações.

Udo Datog Klavier 0051 Photocredit Eddi Bachmann Photography

Crédito Foto: Eddi Bachmann

Confira a entrevista: 

Onde o Rock Acontece: Udo, o Dirkschneider & The Old Gang começou em 2020 como um projeto beneficente. Em que momento você percebeu que essa ideia tinha força para se transformar em uma banda de verdade?

UDO: Não, aquilo… definitivamente não começou como algo que fosse virar uma coisa séria, era só um projeto, sabe? E, hum, então… Aconteceu que quando fizemos aquele negócio com o EP, que era para caridade durante a pandemia, não estava planejado que se tornasse um álbum grande naquele momento. Aí as pessoas começaram a perguntar, muita gente perguntava: “e se fosse possível fazer um álbum?” e tal. Então, levou um tempo até termos todo o material junto, não foi fácil. Quero dizer, o projeto… levou tempo, e agora então, enfim, temos um álbum lançado. Estou realmente feliz com o resultado de tudo isso, e é isso, aqui estamos. (entre risos) Sim. Oh, Jesus Cristo. Quatorze dias, ou algo assim. Estou muito feliz com o resultado de tudo, e eh… é isso!

Onde o Rock Acontece: Manuela, sua voz trouxe uma nova dimensão ao som do Udo. Como foi entrar num grupo com músicos com tanta história no metal alemão?

Manuela: Para mim, claro, foi um presente trabalhar com esses músicos. Foi um grande prazer, eu gostei muito. Foi muita diversão e, claro, uma honra trabalhar com uma lenda como o Udo. O que posso dizer? Foi uma honra.

Onde o Rock Acontece: E como vocês dividiram… como você, Manuela, dividiu as partes? Ter duas vozes, masculina e feminina, é diferente do metal tradicional; como foi esse processo?

UDO: Acho que definitivamente quem tratou disso foi o Stephan Kaufmann. Quero dizer, ele já vinha lidando com a minha voz há muito tempo, desde 1981. Ele sabe exatamente qual é a minha extensão vocal. Então, eu já tinha na cabeça quem cantaria o quê, o que poderíamos cantar juntos, o que encaixava, e o Peter Baltes também participou — o Peter como vocalista principal em algumas partes, sabe? Então, quando juntamos todas as músicas, já dava pra saber qual era a melhor parte para eu cantar sozinho, quais partes ficavam cantadas junto com a Manuela, quais partes com o Peter, e todo esse trabalho. Acho que ele fez um ótimo trabalho.

Onde o Rock Acontece: E o Stephan participou disso, certo?

UDO: Sim, foi o Stephan, sim.

Onde o Rock Acontece: E como você têm dividido o tempo, já que você tem sua banda solo e normalmente toca músicas do Accept; com esse projeto, como equilibrar tudo?

UDO: Funciona porque é muita gente trabalhando em lugares diferentes no mundo. Com o Dirkschneider & The Old Gang, foi um projeto longo. Acho que cada um entrou no estúdio quando tinha tempo. Não sei exatamente quanto tempo levamos, mais de um ano, talvez, sempre foi “entre” outros compromissos. Para mim, tocar músicas do Accept é algo que eu já conheço, não preciso ensaiar tanto, então foi tranquilo, é algo fácil, descontraído. No momento, com o U.D.O., estamos trabalhando no novo álbum do U.D.O., então, de certa forma, estou bem ocupado.

Onde o Rock Acontece: A faixa-título, “Babylon”, é muito boa e parece ter um conceito interessante. Fale sobre a letra e o conceito da música.

Manuela: Este álbum fizemos mais por diversão. Não temos um significado profundo em “Babylon”, só queríamos levar as pessoas para uma aventura, sabe? Tivemos uma ideia e a gente pensou “isso soa como As Mil e Uma Noites”. Aí veio a letra e a história. Então, é só uma música para levar as pessoas numa viagem com a gente, tipo um conto, uma música meio de fábula. É isso que você quis saber?

Onde o Rock Acontece: Sim. Outra faixa que eu gosto muito é “Time to Listen”. Ela tem uma atmosfera emocional. Conte sobre essa música especificamente.

Manuela: Deixe eu pensar… há tantas boas músicas nesse álbum, sabe? “Time to Listen” é, tipo, algo… bem emocional. As letras, digamos, não têm um significado tão profundo como o que fazemos com o Accept, ou o que faço com o U.D.O., falando de coisas sociais e políticas. Neste álbum, as letras são mais simples, não tão carregadas de significado político. Também as músicas foram compostas em conjunto, não é algo que uma pessoa fez sozinha. No fim, alguém teve uma ideia e surgiu a canção. Não dá para dizer que, por exemplo, “Time to Listen” foi composta só por mim. Acho que as letras vieram majoritariamente do Peter Baltes. E eu acho que essa música é sobre viver a vida: cada vida tem um fim, cada dia é precioso. Por isso muita coisa fará falta quando cruzarmos a linha. É um “salve à vida”, para lembrar a gente de viver cada dia ao máximo e aproveitar a vida.

Onde o Rock Acontece: Se você me perguntar, claro, cada pessoa interpreta as músicas de um jeito, não é? Pra mim seria algo como, pare, descanse e escute. 

Manuela: Sim, claro. Cada pessoa pode ter uma interpretação diferente para cada música. Para mim, essa é a mensagem. “Time to Listen” quer dizer que você tem de ouvir muitas coisas — o que está acontecendo, talvez em sua vida pessoal, então a mensagem pode variar para cada um. Hoje com as redes sociais e a internet, muita coisa acontece; “Time to Listen” pode ser um lembrete para pausar, descansar, ficar em silêncio um pouco. É isso que significa para mim. Cada um tem uma visão diferente das letras, e isso é bom.

Onde o Rock Acontece: E o nome do projeto, Dirkschneider & The Old Gang. Quando ouvi pela primeira vez pensei: é UDO com seus velhos amigos?

UDO: Sim, é por aí. “Velhos amigos” são definitivamente, por exemplo, Peter Baltes, Stephan Kaufmann e Matthias, caras com quem trabalho há muito tempo. Também temos a Manuela e meu filho, que são os mais jovens. Trabalhamos juntos há bastante tempo, então dá pra dizer que, de certa forma, são velhos amigos. É “old and young friends”, amigos antigos e jovens. Quando tivemos que colocar um nome, algo como “Dirkschneider & The Old Gang” fez sentido. No fim das contas, os “old” são pessoal como o Matthias, o Peter Baltes e o Stephan, essa é a velha turma, e então temos a Manuela e meu filho trazendo ideias novas, jovem energia. Isso é algo bom.

Onde o Rock Acontece: Manuela, o Udo tem uma enorme história no metal, especialmente na Alemanha. Como foi para você cantar com ele? Foi intenso?

Manuela: Você quer saber como foi para mim cantar com o Udo? Sim, para mim foi uma experiência nova porque eu e o Udo somos de gerações diferentes e crescemos com músicas diferentes. Foi bem novo voltar a cantar metal tradicional, embora, por causa da galera mais jovem, o resultado não seja puramente “tradicional”, ficou mais melódico. Há muito elemento moderno, coisas mais melódicas, então não é o metal tradicional típico; fizemos algo novo com isso. A tradição sempre precisa estar lá, claro, mas acrescentamos elementos novos que nos diferenciam do que outros projetos fazem.

Onde o Rock Acontece: E Udo, como é para você abraçar coisas novas nesses projetos, já que no seu trabalho solo você faz outras coisas? Teve desafio vocal?

UDO: Foi realmente interessante ver até onde eu podia ir com a minha voz. Acho que eu fiz coisas neste álbum que nunca tinha feito antes, explorar faixas mais graves e estilos diferentes. Foi muito interessante pra mim. E esse foi um ponto positivo deste projeto: eu não precisei ser o mesmo U.D.O. o tempo todo. Podemos fazer o que quisermos, e isso foi ótimo. Aprendi muito. Neste momento estamos também trabalhando nas vozes para o novo álbum do U.D.O. Tem uma música lá em que todo mundo comentou “nunca ouvi o Udo cantar assim”. Então, de certa forma, voltar desse projeto “old gang” me fez aprender novas coisas, e é bom ver que consigo fazer mais. Sofri com minha voz em alguns momentos, então isso também foi positivo para recuperar e ampliar o que eu posso fazer.

Onde o Rock Acontece: Vocês pensam em fazer turnê com esse projeto, ou é só trabalho de estúdio?

UDO: Eu estou bem ocupado (risos). No momento, definitivamente não. Nunca digo nunca, mas por enquanto, não. Estou em turnê até setembro do ano que vem, então não há tempo para outra coisa. A gente vê, né? Mas por enquanto, não.

Onde o Rock Acontece: Ontem perdemos outro ícone, Ace Frehley, guitarrista original do Kiss, e queria ouvir você falar sobre isso, a sua reação.

UDO: Sim… Eu estive em turnê com eles em 1984 na América, embora naquele momento era outro guitarrista e ele já não estivesse mais lá, não me lembro o nome. É sempre triste ver alguém assim, uma lenda, partir. Eu li sobre isso hoje e pensei “ah, ele…” — a morte, né? Isso é algo que acontece, e ele tinha 74 anos, não é tão velho. Vou fazer 74 no ano que vem também. 

Manuela: Não pense nisso, Udo, não, não, você vai viver até os 150! (risos) Quando se mantém saudável, claro… espero que sim.

UDO: Há tantas lendas que já se foram — Lemmy, Ronnie James Dio, Ozzy, muitos heróis do heavy metal têm partido. Cada vez há menos desses heróis mais velhos; muitas bandas fazem turnês de despedida, às vezes longuíssimas, como o Deep Purple faz. Então, é a vida: algumas pessoas morrem cedo, outras depois; o que você pode fazer? Nada.

Onde o Rock Acontece: Vocês estão conectados com a nova geração de bandas de metal. Há algumas que fazem heavy metal tradicional na Europa e no Brasil; como você vê isso?

UDO: Acabei de voltar da Turquia, Moldávia e Cazaquistão com o Sabaton, somos muito amigos, tocamos para públicos enormes. Eles são realmente famosos, é algo mais power metal para mim. Outra banda é tipo Powerwolf, por exemplo. Acho que as bandas novas têm que encontrar uma imagem, algo diferente para se destacar num cenário tão cheio. Tem muitas bandas por aí, se quiserem se destacar têm que achar algo especial.

Onde o Rock Acontece: Alguns anos atrás vocês fizeram turnê na América Latina e no Brasil. Em especial, tocou-se com o Andre Matos, que infelizmente faleceu em 2019. O que você recorda dessa experiência com André Matos?

UDO: Foi uma coisa muito boa fazer turnê com ele. Fiz o Metal Singers Tour, acho que já três vezes, com cantores de metal, incluindo Andre e Doogie White. Conheço o Doogie há muito tempo; escrevi algumas músicas para ele quando ele trabalhava com um cara alemão. Foi muito interessante conversar com pessoas assim; ele também tocou com o Rainbow do Ritchie Blackmore, e sempre saem histórias interessantes. Foi um projeto de sucesso.

Onde o Rock Acontece: E quanto a vocês, Udo e Manuela, o que acham que caracteriza mais esse projeto? O que mais salta aos ouvidos?

UDO: Como já disse, fizemos coisas diferentes, mais melódicas, tive que pensar em chaves diferentes, foi importante. Uma coisa que difere do meu trabalho com o U.D.O. é que aqui não houve pressão, não tínhamos prazos das gravadoras. Foi só diversão: queríamos fazer essas músicas e ver se o público gostava e parece que gostaram muito.

Manuela: Sim.

Onde o Rock Acontece: O álbum está tendo boa recepção nas paradas, como está sendo pra você isso?

UDO: A reação foi fantástica. Estamos, por exemplo, número 15 nas lojas na Alemanha, número 7 na Suécia, número 11 na Finlândia até agora e está subindo. Isso mostra que, no fim, a gente fez algo certo.

Onde o Rock Acontece: Talvez a maior diferença, como o Udo disse, é que não havia pressão, isso pode ter ajudado?

Manuela: Sim, a gente fez por prazer, por alegria. Não esperávamos nada; talvez por isso deu certo: as pessoas conseguem escutar que a gente foi criativo, que se divertiu, que a faísca veio da gente e chegou ao público. Isso talvez seja a maior diferença: não foi sob pressão, foi por diversão e alegria. Então o melhor é fazer um álbum se divertindo e não pensar demais no sucesso.

UDO: Exatamente. Fizemos o que gostamos; no fim vamos ver o que acontece. Soou bem e as pessoas gostaram fizemos algo bom.

Onde o Rock Acontece: Obrigado. Esta é minha última pergunta. Acho que o projeto pode continuar no ano que vem?

Manuela: Talvez no ano que vem, ou quando acontecer. Eu gostei muito do álbum.

Onde o Rock Acontece: Tenham um ótimo fim de semana e muito obrigado.

UDO: Muito obrigado, valeu. Abraços ao Brasil.

Manuela: Obrigada, abraço.

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