ENTREVISTA: Arjen Lucassen fala sobre seu novo álbum solo, Ayreon, parcerias e o futuro do prog metal

30/10/2025 // Home  »  DestaqueEntrevistasNotícias   »   ENTREVISTA: Arjen Lucassen fala sobre seu novo álbum solo, Ayreon, parcerias e o futuro do prog metal

Entrevista e texto por Thiago Rahal Mauro

Arjen

Arjen Lucassen, o visionário por trás de projetos como Ayreon, Star One e Supersonic Revolution, conversou com exclusividade com o site Onde o Rock Acontece sobre seu mais recente trabalho solo Songs No One Will Hear e a trajetória que o levou até aqui. Com décadas de carreira e colaborações com alguns dos maiores nomes do rock e metal mundial, Lucassen compartilhou detalhes dos bastidores de suas criações, revelando como mantém viva a chama da originalidade em uma indústria cada vez mais dominada pelo streaming e pela inteligência artificial.

Na entrevista, o multi-instrumentista holandês fala com franqueza sobre os desafios de criar projetos tão ambiciosos, a importância das emoções em suas narrativas sci-fi e sua constante busca por novas vozes no cenário musical. Ele também reflete sobre a relação com o público, o carinho que tem por seus fãs brasileiros e como busca inovar mesmo após trinta anos de carreira. Entre memórias curiosas, como a vez em que uma música sua foi confundida com um lançamento do Iron Maiden, e bastidores de álbuns conceituais marcantes, a conversa é um prato cheio para fãs de música progressiva e metal.

Com bom humor e paixão pela arte, Lucassen ainda dá pistas sobre o futuro do Ayreon, comenta o sucesso dos shows na Holanda e relembra colaborações icônicas com nomes como Bruce Dickinson, Simone Simons e Tobias Sammet. A entrevista é um mergulho na mente de um artista que nunca parou de sonhar – e que continua a construir universos sonoros únicos que desafiam o tempo, os gêneros e até mesmo as fronteiras da imaginação.

Confira a entrevista com Arjen Lucassen:

Onde o Rock Acontece: Vamos começar com o seu novo álbum “Songs No One Will Hear”. A primeira pergunta é sobre a motivação por trás desse disco. Você tem tantos projetos e este é um trabalho solo. Qual foi a intenção por trás desse lançamento?

Arjen: Bem… nos últimos anos eu fiz muitos projetos. Depois do último álbum do Ayreon trabalhei no Plan Nine, Supersonic Revolution e com a Simone Simons. Todos esses projetos foram para outras pessoas. Por exemplo com a Simone eu fiz um álbum para ela, com o Plan Nine fiz um para o Robert. Então achei que estava na hora de fazer algo para mim. E claro o ápice disso seria um álbum solo porque aí eu canto tudo, toco quase todos os instrumentos e não preciso pensar em mais ninguém. Tipo quem vai cantar tal parte ou como outro músico vai tocar. É tudo comigo. Isso é um luxo. Posso entrar no estúdio quando quiser, quando me dá vontade de cantar eu simplesmente vou e faço. Já fazia 12 anos desde meu último álbum solo, Lost in the New Real. O primeiro foi lá em 1993. Já estava mais do que na hora.

Onde o Rock Acontece: A arte do álbum mostra um cometa chegando numa praia e uma pessoa apenas o esperando. Isso tem alguma conexão com o que está acontecendo agora com o 3 Atlas?

Arjen: Bem, sempre existe essa ameaça de cometas né? E as chances são bem altas de que a Terra seja atingida por outro meteoro porque isso já aconteceu várias vezes antes. O último foi há cerca de 65 milhões de anos, o que extinguiu os dinossauros. Então sim é uma das maiores ameaças além do próprio ser humano com guerras nucleares e tal. Mas o espaço é assustador. Pode ser um raio gama do Sol também. Existem tantas formas do universo acabar com a gente.

Onde o Rock Acontece: A primeira vez que ouvi seu som foi no Universal Migrator Part 2: Flight of the Migrator.

Arjen: Que legal. Flight of the Migrator, sim.

Onde o Rock Acontece: O que eu mais gosto nesse disco é que você trouxe grandes vocalistas. Todas as linhas vocais cantadas por eles são inovadoras e bem diferente do trabalho deles com suas bandas.

Arjen: Certo sim.

Onde o Rock Acontece: Por exemplo, o Bruce Dickinson, na música “Into the Black Hole”, essa é uma faixa incrível. Minha pergunta é: quando você escreve uma música para um cantor você já pensa nele durante a composição ou escreve primeiro e depois decide quem canta?

Arjen: Não. Eu escrevo especificamente para os cantores. Isso é muito importante pra mim porque preciso conhecer o alcance vocal deles. Até onde conseguem cantar agudo, grave, onde se sentem confortáveis. Eu geralmente gravo a guia vocal mas uma oitava abaixo porque não consigo cantar alto e com potência. Depois um amigo meu grava a guia final que envio para o cantor. Mas sempre digo: faça do seu jeito. Se quiser mudar coisas, letra, melodia, tudo bem. Sou fã da voz deles então eles sabem o que funciona melhor. E se possível gosto de estar na mesma sala com eles para trabalharmos juntos nas linhas vocais. É algo que eu realmente curto.

Onde o Rock Acontece: Outro álbum que adoro é The Human Equation. Sou fã do Dream Theater e o James LaBrie fez um trabalho incrível nesse disco.

Arjen: Que legal. Sim ele mandou muito bem. Um grande cantor e uma pessoa super bacana.

Onde o Rock Acontece: Gosto muito do conceito e da história do disco. Quando escuto parece um filme. Você escreve esses álbuns conceituais como se fossem filmes ou livros?

Arjen: É estranho, mas nunca li um livro na vida. Não leio, não tenho paciência. Não consigo ficar parado então nunca sobra tempo pra ler. Acho que tiro inspiração de filmes e séries. Vejo muitos. Mas basicamente o que mais me inspira é a própria música. Quando começo a trabalhar em um novo álbum não tenho ideia do conceito. Sempre começo pela música e depois deixo que ela me inspire a criar uma história ou conceito.

Onde o Rock Acontece: Seus conceitos são fascinantes. Por exemplo 01011001 não é uma história comum. Os fãs gostam muito dessa mistura de ficção científica, espaço, tecnologia e emoção. Como surgiu essa ideia?

Arjen: Nossa nem lembro direito já faz tempo. Quando comecei o Ayreon achei que seria só um álbum. O primeiro The Final Experiment saiu em 1995. Não esperava fazer mais. Mas foi um sucesso então fiz Actual Fantasy que não vendeu muito bem. Pensei: preciso voltar aos álbuns conceituais, óperas rock com vários cantores. Aí veio Into the Electric Castle com uma história clara e conexões com o primeiro disco. Depois disso, todos os álbuns do Ayreon passaram a ter ligações entre si. Com o tempo surgiu uma história completa. A raça Forever vive no Planeta Y perdeu as emoções e começou a experimentar com humanos para recuperá-las. O 01011001 faz parte dessa grande saga. É bem complexo. Inclusive lancei o álbum Timeline que vem com um pôster com toda a cronologia do universo Ayreon. Mas eu adoro isso.

Onde o Rock Acontece: Você costuma fazer shows na Holanda a cada ano ou dois. Imagino como deve ser difícil organizar tudo com tantos músicos e cantores. Como você decide quando fazer shows ao vivo?

Arjen: Antigamente toquei em bandas como Bodine e Vengeance e fiz turnês pelo mundo. Mas com o Ayreon por muito tempo não fiz shows ao vivo. Depois fizemos The Theater Equation baseado no The Human Equation e foi um sucesso. Em 2017 fizemos o Ayreon Universe o primeiro grande show do Ayreon em 20 anos. Levamos dois anos planejando com muitas reuniões e ensaios. Como você disse é difícil levar isso ao palco. São cerca de 100 pessoas envolvidas. A ideia era fazer só um show e depois nunca mais. Mas foi um sucesso tão grande que dois anos depois fizemos outro e virou tradição. Um show a cada dois anos. Na pandemia não foi possível mas agora fazemos de cinco a seis apresentações a cada dois anos aqui na Holanda.

Onde o Rock Acontece: Depois de tantos discos como você escolhe novos cantores? Tem uma nova geração incrível por aí.

Arjen: Com certeza. Gosto de trabalhar com meus ídolos mas também adoro descobrir novos talentos. Não leio livros mas leio muitas revistas geralmente quando estou no banheiro. Quando vejo algo sobre uma nova banda ou cantor que as pessoas elogiam anoto o nome. Tenho uma lista enorme. À noite entro no YouTube e ouço todos. Sou muito exigente. Se escuto cem cantores gosto de um e não gosto dos outros 99. Acho que fico mal-acostumado porque já trabalhei com os melhores Bruce Dickinson, Russell Allen, Jorn Lande, Dino Jelusick. Está ficando mais difícil encontrar vozes que realmente me impressionem mas sigo procurando.

Onde o Rock Acontece: Você trabalhou com a Simone Simmons no álbum solo dela – Vermillion. Ouvi essa semana e dá pra sentir seu toque. Tem a sua identidade. Como foi esse processo?

Arjen: A Simone vinha falando sobre um disco solo comigo há muitos anos e eu sempre dizia que topava quando conseguíssemos um espaço na agenda. Finalmente conseguimos parar e começar do zero em estúdio. Eu compus e produzi pensando 100% na voz dela, do alcance ao timbre, e construí as canções em torno da interpretação que só a Simone tem. Foi um processo muito íntimo e direto, sem pressa, em que testamos tonalidades, letras e melodias até tudo soar natural para ela. Desde o início queríamos que Vermillion fosse a realização de um sonho antigo da Simone, com identidade própria. Musicalmente ele fica entre o clima cinematográfico que os fãs conhecem dos meus projetos e uma pegada mais eletrônica e atmosférica, dando muito espaço para a voz dela contar histórias pessoais e intensas. Eu cuidei de guitarras, teclados e arranjos, mas sempre com a ideia de realçar a Simone. Ela trouxe letras densas e emocionais e eu fui moldando harmonias e texturas para que cada palavra tivesse impacto. Tivemos o cuidado de fugir de exageros e deixar as camadas servirem à canção. No fim, saiu um álbum que é dela em primeiro lugar, mas onde quem acompanha meu trabalho também reconhece minha mão nos detalhes. Lançamos e eu me orgulho de como tudo soou coeso e honesto do começo ao fim.

Onde o Rock Acontece: Você conhece cantores ou bandas brasileiras que participam de projetos parecidos com os seus? Tipo o Soulspell?

Arjen: Sim claro.

Onde o Rock Acontece: E o que acha dos músicos brasileiros?

Arjen: São ótimos. Existem muitas bandas boas e cantores incríveis no Brasil. Ainda tem vários com quem quero trabalhar. O Soulspell é uma delas. Toquei solos de guitarra pra eles e foi fantástico. Gosto muito do que eles fazem.

Arjen Lucassen Star One 2021

Onde o Rock Acontece: Nos anos 2000 surgiu o Avantasia. Algumas pessoas criaram uma rivalidade com o Ayreon mas eu acho que não fazia muito sentido essa rivalidade. Como foi ter Tobias Sammet nos seus discos?

Arjen: Foi uma rivalidade divertida. O Toby e eu nos damos super bem. Uma vez ele disse algo que saiu errado na imprensa depois me mandou um e-mail se desculpando. Disse que adorava minha música e perguntou se eu queria tocar no álbum dele. Eu disse claro mas só se você cantar no meu. E assim foi. Somos grandes amigos.

Onde o Rock Acontece: Hoje o streaming domina o mercado, mas seus projetos têm orçamentos altos e elencos gigantes. Como você fecha essa conta sem comprometer qualidade e ambição?

Arjen: O streaming é terrível. Quase não ganhamos nada. Mas sou sortudo. Meus fãs estão comigo há 20 ou 30 anos. Naquela época ainda compravam CDs. Eles querem ter a coleção completa. Por isso sempre faço pacotes especiais com arte bonita e fotos. Quero oferecer algo que faça valer a compra. Quando eu era garoto ia a lojas de discos e escolhia só pela capa. Então sempre tento agradar meus fãs em cada lançamento. Acho que a maioria compra o disco e ouve também no Spotify. É assim hoje.

Onde o Rock Acontece: E para o ano que vem? Os últimos shows na Holanda foram gravados né? O que vem aí?

Arjen: Sim, fizemos os shows de 30 anos em setembro. O resto do ano vou trabalhar no Blu-ray e DVD ao vivo. Vou mixar o áudio e revisar os vídeos. Esse lançamento está previsto para o primeiro semestre de 2026 comemorando os 30 anos do Ayreon. Depois disso acho que está na hora de outro álbum do Ayreon. Já se passaram mais de cinco anos desde Transitus e fiz muitos projetos paralelos. Acho que o público está pronto.

Onde o Rock Acontece: E o Star One?

Arjen: Já são três álbuns. Com certeza farei outro. É minha válvula de escape pro metal. Me divirto muito fazendo música pesada com o Star One.

Onde o Rock Acontece: E o futuro do prog? Com redes sociais e IA acha que o gênero vai sobreviver?

Arjen: Acho que sempre vai haver gente interessada em música mais ousada. Nem todo mundo quer ouvir músicas pop genéricas feitas por IA. Vai sempre existir um público para esse tipo de som. O rock progressivo sobrevive há décadas. Começou nos anos 60 e 70 e ainda está aqui. Enquanto outros gêneros sumiram. Então acredito que o prog e o metal sempre terão seu espaço.

Onde o Rock Acontece: Muito obrigado pelo seu tempo. Agradeço de verdade.

Arjen: Eu que agradeço. Desculpa de novo pelos problemas de som mas às vezes a tecnologia atrapalha mesmo.

Ayreon Arjen Anthony Lucassen

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