Por Thiago Rahal Mauro

Poucas bandas mudaram a história da música como o Black Sabbath. Surgido em Birmingham no final dos anos 1960, o grupo formado por Tony Iommi, Geezer Butler, Bill Ward e Ozzy Osbourne é amplamente reconhecido como o criador do heavy metal. Com sua mistura única de riffs pesados, letras sombrias e atmosferas quase apocalípticas, o Sabbath pavimentou o caminho para um novo gênero musical que influenciaria milhares de bandas nas décadas seguintes.
Durante a fase com Ozzy Osbourne nos vocais — de 1970 até 1978 — a banda lançou alguns dos álbuns mais revolucionários e influentes do rock pesado. Mais do que clássicos, esses discos definiram uma estética sonora e visual que ainda ecoa na cultura pop atual. A seguir, destacamos quatro desses álbuns essenciais, analisando faixas icônicas, bastidores das gravações e a importância de cada um no legado do Black Sabbath.
O primeiro álbum, Black Sabbath (1970), marcou o nascimento do heavy metal. Gravado em apenas um dia, o disco apresenta uma sonoridade sombria, marcada por tritonos e climas carregados. A faixa-título abre com uma das introduções mais assustadoras do rock, com trovões e sinos, seguida por riffs lentos e pesados. A música “N.I.B.” também se destaca, com seu famoso solo de baixo de Geezer Butler e letra narrada do ponto de vista do diabo.
O impacto foi imediato: críticos da época se dividiram, mas o público abraçou o som inédito e obscuro da banda. Inspirado por filmes de terror e ocultismo, o álbum colocou o Sabbath como criadores de um estilo próprio. Mesmo com a simplicidade das gravações, a atmosfera densa fez história. “The Wizard”, com sua gaita e groove quase blues, mostrava que o grupo tinha mais versatilidade do que muitos pensavam.
Paranoid (1970) é, até hoje, o maior sucesso comercial do Black Sabbath. Curiosamente, a faixa-título foi composta às pressas para preencher tempo de estúdio e acabou se tornando um hino. O disco inclui clássicos como “Iron Man”, com seu riff robótico e letra de ficção científica, além de “War Pigs”, uma crítica feroz à guerra do Vietnã com vocais dramáticos de Ozzy.
Além do peso, Paranoid mostrou a habilidade da banda em criar canções acessíveis, mas sem abrir mão da identidade sombria. “Electric Funeral” mergulha no doom metal, enquanto “Planet Caravan” surpreende com vocais etéreos e clima psicodélico. É o álbum que colocou o Black Sabbath nas rádios e palcos do mundo todo, influenciando gerações futuras.
Master of Reality (1971) foi um passo além na construção do som pesado. Tony Iommi afinou sua guitarra em tons mais baixos para aliviar dores nos dedos – resultado de um acidente na juventude –, criando uma sonoridade ainda mais grave. Faixas como “Children of the Grave” e “Sweet Leaf” tornaram-se hinos do metal, esta última uma ode aberta à maconha, com direito a uma tosse real na introdução.
Com apenas oito faixas, o disco é direto e poderoso. “Into the Void” é considerada uma das composições mais pesadas do grupo, influenciando vertentes como o sludge e o stoner metal. Já “Solitude” mostra o lado mais melancólico e suave da banda, com Ozzy cantando de forma quase sussurrada. Master of Reality foi subestimado pela crítica na época, mas hoje é reconhecido como um divisor de águas no metal.
Vol. 4 (1972) marcou uma virada sonora na carreira do Black Sabbath. Gravado em Los Angeles, o álbum foi o primeiro em que a banda teve controle total da produção e orçamento — e isso se refletiu tanto na liberdade criativa quanto nos excessos, especialmente o uso intenso de cocaína durante as sessões. Musicalmente, o disco é mais experimental, com faixas como “Supernaut”, que traz um dos riffs mais festejados por colegas músicos (Tony Iommi revelou que Frank Zappa a elogiava constantemente).
O álbum também apresenta “Snowblind”, uma música abertamente inspirada no uso de cocaína (a palavra “cocaine” foi censurada na mixagem final), e a melancólica balada “Changes”, uma faixa ao piano que chocou muitos fãs pela suavidade emocional. “Tomorrow’s Dream” e “Wheels of Confusion” mantêm a pegada pesada, mas com arranjos mais elaborados. Vol. 4 é o retrato de uma banda no auge criativo, ousando mais e ampliando os limites do que o heavy metal podia ser.
Sabbath Bloody Sabbath (1973) é visto por muitos como o ápice criativo da banda com Ozzy. Após uma crise de bloqueio criativo, o grupo se isolou num castelo assombrado para compor — e a inspiração voltou. A faixa-título é uma obra-prima, com mudanças de tempo, riffs pesadíssimos e um refrão explosivo. “A National Acrobat” mistura ocultismo e questionamentos existenciais com riffs arrastados e hipnóticos.
O disco explora novos territórios sonoros com teclados e arranjos complexos, mostrando maturidade musical. “Spiral Architect”, por exemplo, traz orquestrações que davam um ar quase sinfônico à banda. Rick Wakeman, do Yes, chegou a colaborar em algumas faixas. Sabbath Bloody Sabbath demonstrou que o Black Sabbath era mais do que peso — era também inovação e sofisticação musical.
13 (2013) marcou o aguardado retorno do Black Sabbath com Ozzy após 35 anos sem gravarem juntos um álbum completo de estúdio. Embora Bill Ward não tenha participado por divergências contratuais, o disco trouxe Tony Iommi e Geezer Butler ao lado de Ozzy, com produção de Rick Rubin. O resultado foi um álbum sombrio, pesado e nostálgico — um verdadeiro resgate do espírito da formação original.
Faixas como “God Is Dead?” e “End of the Beginning” remetem diretamente à sonoridade da era clássica, com longas introduções, variações de andamento e letras densas. O disco estreou em primeiro lugar em vários países, incluindo os Estados Unidos — um feito inédito para a banda. “Loner” e “Dear Father” também ganharam destaque, mostrando que mesmo décadas depois, o Black Sabbath com Ozzy ainda tinha força para criar metal poderoso, atual e respeitado.









